8 estúdios de design e arquitetura que estão redesenhando o morar contemporâneo

Da biomimética de Marko Brajovic ao artesanato de Igor Sabá, conheça os nomes que unem ancestralidade e inovação para criar um design autoral, disruptivo e consciente
Entre materiais naturais, experimentações têxteis e estruturas inspiradas na natureza, a produção contemporânea atravessa escalas e linguagens para repensar o design como território de criação, memória e futuro | Foto: Divulgação

Por: Camila Lima

Referências ancestrais, escuta atenta à natureza e experimentações com novos materiais se entrelaçam na produção de estúdios que pensam o design como linguagem, território e provocação. Entre memórias afetivas e demandas urgentes do presente, seus projetos transcendem limites geográficos, culturais e disciplinares, afirmando uma prática que é, ao mesmo tempo, local e global, artesanal e tecnológica, intuitiva e política.

Nesta edição, reunimos oito escritórios que representam essa cena pulsante e plural: mentes visionárias que, ao romper com padrões estabelecidos, expandem o campo do possível e redesenham os modos de imaginar e construir o amanhã.

Atelier Brajovic, Marko Brajovic

Retrato de Marko Brajovic, arquiteto croata radicado no Brasil, cuja produção investiga a biomimética e a integração entre natureza, cultura e tecnologia | Foto: Divulgação

Em um mundo onde as fronteiras entre a cidade e a natureza parecem cada vez mais acentuadas, o trabalho do arquiteto croata Marko Brajovic surge como uma ponte poética e funcional entre esses dois universos. Especialista em biomimética e radicado no Brasil desde 2006, Brajovic desenvolve uma arquitetura que não apenas respeita o meio ambiente, mas estabelece uma relação quase simbiótica entre a inovação humana e a sabedoria da natureza.

“A essência do meu trabalho e de minha vida como um todo é que tudo é natureza. Estar na cidade ou na mata, tanto faz, afinal, nós somos natureza”, diz Brajovic, em palavras que ecoam quase como um manifesto arquitetônico. De sua visão holística, nascem espaços e objetos emergem entre florestas, resgatam técnicas construtivas indígenas e se inspiram nas estruturas perfeitas da arquitetura animal – organismos que, há milhões de anos, criam formas extraordinárias a partir dos materiais disponíveis em seu próprio entorno.

Instalação Ninho, de Marko Brajovic, propõe um refúgio urbano inspirado em estruturas naturais, com uso de madeira e materiais reciclados em diálogo com o entorno do Parque da Água Branca | Foto: Roberta Gewehr/Divulgação

Um exemplo atual dessa abordagem é a instalação Ninho, em cartaz na CASACOR São Paulo, no Parque da Água Branca. Mais do que um lounge externo, o projeto representa um protótipo urbano inspirado nos ninhos feitos por pardais, periquitos e beija-flores, “arquitetos” com quase 3,8 bilhões de anos de experiência acumulada em construção. Erguido a partir de pinus reflorestados e enxertos de painéis plásticos reciclados, o espaço é decorado por grandes sofás verdes em formato de ovos, feitos para o uso do público do próprio parque.

“O conceito deste projeto surgiu há mais de um ano, com o intuito de estabelecer uma conexão entre um evento interno e o dia a dia que acontece no local. As proporções desta instalação também replicam aos humanos a sensação de um pássaro dentro de seu próprio ninho”, explica.

Essa mesma lógica de integração se reflete em sua vida pessoal. Desde a pandemia, Marko fez de sua casa Arca, localizada na Aldeia Rizoma, em Paraty, e encravada na Mata Atlântica, a residência oficial de sua família. Seu escritório, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, onde lidera uma equipe de 70 arquitetos, é uma extensão complementar dessa dinâmica. “O trânsito constante entre a metrópole e a Mata Atlântica não representa uma dualidade, mas, sim, a materialização de minha filosofia”, diz.

Projeto do hotel Mirante do Madadá, no Amazonas, propõe estruturas inspiradas em formas orgânicas que se integram à paisagem da floresta, em diálogo com a biodiversidade e os saberes locais | Foto: Divulgação

Entre os projetos mais recentes do atelier, o arquiteto destaca o Hotel Mirante do Madadá, um resort com estruturas em formato de cascas, localizado às margens do Rio Negro, no Parque Nacional de Anavilhanas. Concebido sob o título “Como Viveremos Juntos?” e apresentado na 17ª Bienal de Arquitetura de Veneza, tem como intuito encontrar soluções para os desafios atuais do planeta – das divisões políticas às desigualdades econômicas e ao desequilíbrio ambiental. Com inauguração prevista para julho de 2026, o hotel e oferecerá uma experiência de imersão total na paisagem amazônica, em respeito à biodiversidade e em diálogo direto com as comunidades locais.

Rodrigo Ambrósio

Retrato de Rodrigo Ambrósio, designer alagoano cuja produção investiga memória, território e matéria a partir de processos experimentais e colaborações com a indústria e o artesanato | Foto: Divulgação

Quando pequeno, o alagoano Rodrigo Ambrósio queria ser piloto de avião. As viagens anuais entre Maceió, sua cidade natal, e Lisboa, terra de sua família paterna, aguçavam o fascínio pelo céu, onde passava horas observando a imensidão azul pela janela. A aviação, contudo, exigia uma disciplina que soava incompatível com sua mente inquieta e criativa. Optou pela arquitetura, formando-se em 2007 pela Universidade Federal de Alagoas. Mas foi ao se tornar, alguns anos depois, professor de design na mesma instituição, que a carreira como designer ganhou lugar definitivo.

“Sempre tive uma mente criativa, sem amarras, e um olhar atento e carinhoso para minhas raízes. Lembro que, ainda criança, escrevi num trabalho escolar: ‘Maceió, quem sai quer voltar, quem chega quer ficar’”, relembra.

Cadeira Engenho, de Rodrigo Ambrósio, é esculpida a partir de blocos de rapadura e propõe uma reflexão sensorial sobre alimento, território e efemeridade no design | Foto: Divulgação

O ponto de virada na carreira veio em 2015, com a criação da cadeira Engenho, esculpida com 50 kg de rapadura de sua terra natal. Exposta na Semana de Design de Milão, a peça propunha uma reflexão sobre alimentação e território – e foi, ao fim da mostra, cortada e degustada, em uma experiência quase antropofágica.

Entre seus projetos mais emblemáticos está o uso inusitado da casca de sururu – molusco típico do litoral alagoano – como matéria-prima para uma linha de cobogós desenvolvida para a Portobello, em parceria com o arquiteto Marcelo Rosenbaum. Outros trabalhos de destaque incluem peças em papelão criadas com o mineiro Domingos Tótora para a Dpot, e o bowl Imperial, feito com corda náutica para a Tidelli. Produções em série que mantêm, ainda assim, o apelo artístico e identitário que marca toda sua trajetória.

“O design é também um exercício em constante movimento. Existem condicionantes que levam a um resultado baseado no momento, na necessidade das pessoas, na indústria e de minha missão pessoal de imprimir, a cada criação, tanto meu lado artista quanto meu lado designer”, explica.

Banco Arapuca, de Rodrigo Ambrósio, parte de referências vernaculares para criar uma peça que tensiona estrutura, trama e transparência em um gesto entre o artesanal e o industrial | Foto: Divulgação

Além de assinar peças autorais e colaborar com marcas brasileiras, Rodrigo atua como diretor criativo da marca Janete Costa, perpetuando o legado da icônica arquiteta e designer pernambucana. Por sinal, acaba de estrear a exposição “Viva Janete”, no Museu Nacional da República, em Brasília, com uma série inédita de mobiliários, objetos e obras desenvolvidas em parceria com artesãos locais, reafirmando sua crença no design como instrumento de memória, afeto e transformação.

Mash T Studio, Thabisa Mj

Retrato de Thabisa Mjo, fundadora do Mash T Studio, cuja produção transforma técnicas tradicionais sul-africanas em peças contemporâneas que articulam identidade, memória e narrativa | Foto: Divulgação

Há uma força ancestral por trás das criações de Thabisa Mjo, fundadora do Mash T Studio. Suas peças ultrapassam a funcionalidade e transformam saberes tradicionais em expressão contemporânea: técnicas de tecelagem transmitidas entre gerações, narrativas visuais que celebram a cultura sul-africana e uma filosofia colaborativa que valoriza o trabalho artesanal local. Formada em Cinema, com especialização em Design de Produção, Thabisa percorreu um caminho fora do script até encontrar no design de produto sua linguagem definitiva.

“Nos sets de filmagem, percebi que era apaixonada por contar histórias por meio dos cenários. Mas tudo permanecia no campo da ficção. Ao me tornar designer, consegui transformar esse mundo imaginário em itens tangíveis”, conta.

Luminárias pendentes da coleção T Design, de Thabisa Mjo, exploram padrões gráficos e técnicas de tecelagem para traduzir, em luz e matéria, narrativas da cultura sul-africana | Foto: Divulgação

O reconhecimento internacional veio em 2018 com o lustre Tutu 2.0, eleito o objeto mais belo da África do Sul por votação popular. A peça, que integra hoje a coleção permanente do Museu de Artes Decorativas de Paris, sintetiza sua abordagem sensível, simbólica e autoral.

Outro marco é o banco Hlabisa, criação desenvolvida em parceria com a mestra tecelã Beauty Ngxongo. “Inspirei-me nas minhas memórias de infância. O encosto ondulado remete às colinas da região onde minha avó vivia”, revela. A peça foi incorporada ao acervo do Centre Pompidou, consolidando o trabalho da designer no cenário internacional.

Banco Hlabisa, de Thabisa Mjo, combina marcenaria e tecelagem artesanal para evocar paisagens e memórias da cultura sul-africana em uma peça de forte expressão gráfica | Foto: Divulgação

Se suas primeiras obras emergiram de um mergulho profundo em suas raízes, hoje sua paleta criativa se expande. Thabisa vive e trabalha em Joanesburgo, cidade que descreve como um celeiro de energia criativa. “Há por aqui um senso coletivo de entusiasmo, urgência e propósito. Uma energia que reflete no meu trabalho”, diz.

Atualmente, a designer explora novos materiais e linguagens, investigando formas tridimensionais a partir de superfícies planas. Um novo capítulo para quem transforma a riqueza cultural de um continente em uma estética de alcance universal.

Super Rat Studio, Kazuki Nagasawa

Retrato de Kazuki Nagasawa, designer japonês fundador do Super Rat Studio, cuja produção investiga materiais tradicionais e processos contemporâneos em peças de forte apelo experimental | Foto: Divulgação

Na mais recente edição do Salone Satellite, braço do Salão Internacional do Móvel de Milão voltado aos novos talentos do design mundial, uma série de objetos delicados e instigantes atraía olhares – mesmo os mais desatentos. Era coleção Utsuwa-Juhi, assinada pelo designer japonês Kazuki Nagasawa: vasos translúcidos, leves e resistentes, feitos a partir da casca da palmeira Trachycarpus fortunei, espécie nativa do Japão. Esse material, presente no artesanato tradicional japonês dos séculos XVII e XVIII, antecipou, de certo modo, a função que mais tarde seria atribuída ao náilon e ao vinil.

Nas mãos de Kazuki, ele ganha novas camadas de sentido e beleza, com acabamento tingido por uma solução à base de tanino de caqui e resíduos metálicos. O resultado é uma coleção que equilibra, em partes iguais, história, tecnologia e arte – e que lhe rendeu o prêmio de melhor projeto da mostra. “Nunca imaginei que seria selecionado para expor em uma feira dessa magnitude e, muito menos, que sairia com um prêmio desses”, conta.

Coleção Utsuwa-Juhi, de Kazuki Nagasawa, reúne vasos produzidos a partir da casca da palmeira Trachycarpus fortunei, explorando leveza, resistência e a reinvenção de técnicas tradicionais japonesas | Foto: Divulgação

Nascido em Osaka, Nagasawa se formou em Design pela Kuwasawa Design School. Em 2017, integrou a equipe de criação da badalada Super Potato Co., estúdio fundado por Takashi Sugimoto – nome responsável por projetos icônicos, como o conceito da marca Muji. No ano passado, Kazuki decidiu seguir em carreira solo e fundou o Super Rat Studio, com sede em Tóquio. “É um espaço focado em abraçar novas ideias, que tenham compromisso ambiental e que sejam capazes de criar itens que entrem em harmonia com o estilo de vida contemporâneo”, explica. Um gesto que revela, mais do que um método, uma ética de criação: respeito às origens, ao tempo das coisas e à inteligência invisível da matéria.

Wentz, Guilherme Wentz

Retrato de Guilherme Wentz, designer brasileiro cuja produção alia rigor formal, investigação material e uma busca constante pela simplicidade essencial | Foto: Divulgação

Estar diante de infinitas possibilidades e, ainda assim, perseguir a simplicidade absoluta. Domar a inquietude criativa até que ela alcance a funcionalidade exata. Talvez esses dois princípios sintetizem os desafios – e a essência – do trabalho de Guilherme Wentz, designer gaúcho cuja produção alia precisão técnica e respeito à matéria.

Natural de Caxias de Sul, polo industrial brasileiro, Wentz credita às suas origens o rigor e conhecimento técnico que imprime a cada um de seus projetos. Já a São Paulo, lugar onde vive desde 2014, condiciona o repertório cosmopolita e cultural que molda seu estilo. “Como antítese das duas cidades, também encontro na natureza um refúgio silencioso e altamente inspirador”, diz.

Cadeira Gravata, de Guilherme Wentz, traduz a busca pela síntese formal em uma peça de linhas depuradas, com estrutura em madeira e assento que valoriza textura e proporção | Foto: Divulgação

Com passagens pela direção de estilo das marcas Decameron e Carbono, o designer comanda desde 2019 seu próprio estúdio – o Wentz –, que já figura em respeitados circuitos do design contemporâneo. Seu vaso Pós-Tropical integra o acervo permanente do Museu do Design e da Moda, em Lisboa. Em 2021, Wentz foi citado pelo New York Times entre os “Seis estúdios em ascensão das Américas”.

“Mesmo com essas conquistas, acredito que o melhor trabalho sempre está por vir. Provavelmente porque me identifico mais com os pensamentos que tenho hoje”, pontua. De todas as formas, o sofá Baixo – peça com assento próximo ao chão, superfície praticamente sem costuras e feita com tecido obtido de 100% de garrafas PET recicladas, recolhidas de zonas de alto risco ambiental – segue sendo um de seus maiores orgulhos.

Vaso Solo, de Guilherme Wentz, explora a leveza estrutural e o desenho contínuo do metal em contraste com a organicidade do elemento natural, criando uma peça de presença silenciosa e precisa | Foto: Divulgação

Atualmente, o estúdio desenvolve uma nova coleção de mobiliário centrada na pureza das formas e na valorização das texturas e significados das madeiras e pedras naturais brasileiras. “Queremos que cada peça dialogue com nossa paisagem material, mas sem nostalgia”, antecipa Wentz, reafirmando sua vocação: criar com propósito, rigor e atemporalidade.

Marie Isabelle Poirier-Trajano

Retrato de Marie Isabelle Poirier-Trajano, artista franco-espanhola que transforma técnicas têxteis tradicionais em esculturas contemporâneas de forte carga sensorial e narrativa | Foto: Divulgação

Molduras de mais de 8 m de altura, torres imensas formadas por emaranhados de fios de lã e obras têxteis impactantes, que oferecem uma visão artística nova a processos artesanais milenares. É esta a cara – e a alma – do ateliê da artista franco-espanhola Marie Isabelle Poirier-Trajano, localizado no vilarejo de Genalguacil, nas montanhas da Andaluzia – um enclave criativo conhecido por abrigar centenas de obras de arte entre suas ruas, praças e telhados.

Marie, que nasceu em Antera, bem perto dali, cresceu em Paris, e carrega em seu trabalho inúmeras influências de ambas as culturas. “Meu pai foi um excelente marceneiro; minha mãe, apaixonada por flamenco, e minhas férias de verão sempre foram dominadas por trabalhos manuais. Passava meses ao lado de minha avó aprendendo ponto cruz e observando meu avô a tecer lindos cestos”, lembra.

Obra têxtil Feelings, de Marie Isabelle Poirier-Trajano, é criada a partir da técnica japonesa shibori e transforma o gesto artesanal em uma escultura de forte expressão tátil e emocional | Foto: Divulgação

Formada em Artes Aplicadas pela École Boulle e em Artes Gráficas pela Les Gobelins, ambas universidades parisienses, ela atuou por anos como designer de interiores, assinando a decoração de grandes hotéis franceses – sempre atraída pelo universo têxtil. Foi nesse período que se aproximou dos mestres das tradicionais casas Lemarié e Lesage, fornecedores de bordados para a alta-costura, incluindo a Chanel.

O encantamento virou vocação. Suas esculturas têxteis monumentais já foram destaque em importantes feiras de arte, como a ARCO 2024. Mas foi com a obra Feelings – fruto de três semanas intensas de trabalho a partir da técnica japonesa shibori – que Marie conquistou reconhecimento internacional: tornou-se finalista do Loewe Foundation Craft Prize 2025, prêmio que celebra a excelência e a inovação no artesanato contemporâneo.

A peça, exibida no Museu Thyssen-Bornemisza, em Madri, confirma sua habilidade de transformar tradição em linguagem poética. Nas mãos de Marie, o fio não é apenas matéria, é tempo, memória e expressão que resiste ao efêmero.

Alva Design, Susana Bastos e Marcelo Alvarenga

Retrato de Susana Bastos e Marcelo Alvarenga, fundadores da Alva Design, cuja produção articula memória, matéria e narrativa em peças que transitam entre o artesanal e o contemporâneo | Foto: Gustavo Marx/Divulgação

Fundada em Belo Horizonte, em 2013, a Alva Design é, antes de tudo, uma criação de família – daquelas que sabem valorizar as raízes sem perder de vista o mundo. O nome do estúdio é uma corruptela do sobrenome Alvarenga, dos irmãos e sócios Susana e Marcelo, mas também remete à ideia de alva: luz, começo, folha em branco. Um símbolo perfeito para o processo colaborativo e inventivo que move a marca desde o início.

Com formações distintas – ela em Moda e Artes Plásticas, ele em Arquitetura –, os dois se aproximaram enquanto trabalhavam para a marca mineira Coven: Susana no time de estilo e Marcelo assinando os projetos de interiores. “Nosso primeiro projeto juntos foi uma instalação têxtil”, relembra ela.

Cadeira Barbatana (2024), da Alva Design, destaca o trabalho em madeira e o desenho estrutural aparente, equilibrando precisão técnica e expressão escultórica | Foto: Studio Tertulia/Divulgação

Desde então, a Alva percorreu diversos caminhos: firmou parcerias com grandes empresas do setor moveleiro, conquistou espaço no Brasil e no exterior – com peças vendidas em países como França, Bélgica, Rússia e Estados Unidos –, mas nunca abriu mão da poesia como linguagem central. A coleção Eu, tu, ele, por exemplo, homenageia a figura do palhaço, paixão de infância dos irmãos: lágrimas, golas e narizes se transformam em detalhes sutis de objetos cosmopolitas. Já a série Três pesos e três medidas, composta por pesos de papel, carrega uma mensagem subliminar sobre momentos da política brasileira de forma poética e longe de ativismos.

“Nossa proposta é acrescentar uma camada sensível a questões do cotidiano, com responsabilidade material e simbólica”, explica Susana. Entre as matérias-primas usadas estão a madeira de reuso e a pedra-sabão – ícone do artesanato mineiro, reinterpretada pela dupla com sofisticação e frescor.

Mesa Carrapato, da Alva Design, explora a repetição de formas curvas em madeira para criar uma peça lúdica e escultórica, que tensiona função e narrativa no mobiliário contemporâneo | Foto: Studio Tertulia/Divulgação

O processo criativo também é equilibrado. “Gosto muito de escolher os materiais, de acompanhar a produção. Já o Marcelo domina o desenho técnico. Mas algumas das nossas peças mais emblemáticas foram criadas integralmente em parceria”, diz, citando as linhas Amorfos (vasos-escultura) e Alva (gaveteiros-aparadores produzidos pela Ethel).

Em 2025, a Alva inicia um novo capítulo. Ainda neste segundo semestre, inaugura seu primeiro espaço físico: uma loja-galeria instalada no casarão histórico da marca Coven, no bairro de Lourdes, em Belo Horizonte. Um endereço onde a arte – como sempre – será a verdadeira anfitriã.

Estúdio Sabá, Igor Sabá

Retrato de Igor Sabá, designer e artista visual cuja produção investiga a cultura brasileira por meio de narrativas que articulam natureza, saber popular e identidade | Foto: Divulgação

Designer de produto e artista visual, Igor Sabá traduz em cada criação a potência simbólica da cultura brasileira. Formado pelo Centro Universitário Belas Artes, em São Paulo, e radicado no Ceará, ele costura narrativas que unem natureza, saber popular e espiritualidade – uma obra sensível à ancestralidade indígena, ao artesanato regional e às paisagens do sertão.

Atualmente, Igor se divide entre dois estúdios. No Estúdio Sabá, investiga a cultura vaqueira em peças de mobiliário criadas com palha de milho e carnaúba – matérias que, mais que forma, carregam memória. Já no Sá Rivá, criado com o arquiteto Assis Saraiva, mergulha no modernismo brasileiro, combinando funcionalidade e poética nordestina em objetos que equilibram gesto e rigor.

Mesas Seixo, de Igor Sabá, exploram a sobreposição de volumes e materiais para evocar a organicidade das pedras do sertão em composições que equilibram escultura e função | Foto: Divulgação

Sua produção também se estende ao campo das artes visuais e da cenografia, com exposições no Brasil e no exterior. Na Semana de Design de Milão de 2025, apresentou a instalação Romaria, uma reverência à fé popular, feita com chapéus de carnaúba dispostos como mandalas – evocando, com delicadeza, o tempo do ofício e o ritmo da oração.

Entre seus projetos de maior destaque estão a poltrona Úba, inspirada na flora do Cariri e construída em chapas de ferro cortadas a laser, e a mesa Seixo, peça de apoio que remete à fluidez das pedras do sertão, aliando estrutura artesanal e presença escultural.

Com passagens por eventos como Coccoloba e Amid Earth and Sky, e representado por galerias nos Estados Unidos e na Itália, Igor afirma seu lugar como um dos nomes mais instigantes da cena brasileira. Sua trajetória é uma celebração da criatividade, da tradição e da beleza que reside na simplicidade dos materiais e na profundidade das narrativas que eles carregam.

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