
Entre o mar e a Mata Atlântica, há um trecho do litoral paulista onde construir nunca foi sinônimo de ocupar, mas de negociar. É ali, na Serra do Guararu, litoral de São Paulo, que o arquiteto Marcos Acayaba (@marcosacayaba) desenvolveu, ao longo de quatro décadas, um conjunto de casas que parecem menos implantadas e mais pousadas sobre o território.
Espalhadas entre praias como Tijucopava, Iporanga, São Pedro e Taguaíba, essas residências nascem de uma premissa simples e rara: a de que a arquitetura não deve domesticar a paisagem, mas aprender com ela.
Casas que começam pela topografia

Não existe repetição. Cada projeto responde a um pedaço específico de terreno, muitas vezes íngreme, instável, de acesso difícil e cercado por uma vegetação densa e protegida. É por isso que tantas dessas casas se elevam do solo, apoiadas em estruturas que minimizam o impacto direto sobre a terra.
A estratégia não é estética – embora resulte em imagens potentes –, mas ambiental: preservar drenagem, raízes, circulação de ar e a própria continuidade da floresta. Nesse sentido, a arquitetura atua quase como uma infraestrutura leve, que toca o chão com cuidado e deixa o restante acontecer.
Um laboratório contínuo

Ao longo dos anos, o conjunto funciona como um campo de experimentação. Estruturas, materiais e soluções espaciais variam conforme as condições de cada lote, mas mantêm um fio condutor: economia de meios, rigor técnico e uma certa liberdade formal que nasce da necessidade, não do gesto.
Há casas que se organizam em módulos, outras que se alongam acompanhando o terreno, algumas que parecem suspensas entre árvores. Em comum, todas evitam o excesso, seja de área construída, de intervenção, seja de protagonismo.
Construir dentro de um território sensível

A Serra do Guararu é, hoje, uma Área de Proteção Ambiental (APA), com mais de 25 km² de Mata Atlântica preservada. Um território que abriga floresta, manguezais, restingas e nascentes – e que exige, por definição, um tipo de ocupação mais responsável.
Mas o interessante é perceber que muitas dessas casas antecedem a formalização da APA. Ou seja: a lógica de respeito ao ambiente não veio como imposição normativa, mas como escolha projetual.
Entre permanência e transformação

Outro aspecto que atravessa essas obras é o tempo. Diferente de projetos pensados como objetos acabados, as casas de Acayaba lidam com transformação: da vegetação, da luz, do clima e do próprio uso. Ao longo das décadas, elas envelhecem, integram-se ainda mais à paisagem e, em alguns casos, praticamente desaparecem entre as árvores.
Quando o livro entra em cena

Esse conjunto agora ganha uma leitura mais ampla no livro Arquitetura e natureza, 23 casas na Serra do Guararu, publicado pela Romano Guerra Editora.
Organizado por Marlene Milan Acayaba, com imagens de Nelson Kon, o volume reúne 23 projetos – sendo a maioria inédita – e costura documentação, memória e reflexão crítica sobre essa produção. Mais do que um catálogo, funciona como registro de um pensamento que se construiu em diálogo direto com o território.
No fim, o livro ajuda a nomear algo que já estava lá: uma arquitetura que não se impõe, não replica fórmulas e não tenta vencer a natureza, mas que aprende, com alguma disciplina, a existir dentro dela. A publicação será lançada em 13 de junho, em São Paulo, com valor previsto em R$ 200.




