Comigo ninguém pode: Brasil cria pavilhão sensorial na Bienal de Veneza

Com curadoria de Diane Lima, o Pavilhão do Brasil transforma arquitetura, espiritualidade e memória colonial em experiência na 61ª Bienal de Veneza
A fachada do Pavilhão do Brasil na 61ª Bienal de Veneza antecipa a atmosfera sensorial de Comigo ninguém pode, mostra que reúne Adriana Varejão e Rosana Paulino em um diálogo sobre memória, espiritualidade e colonialismo | Foto: Rafa Jacinto, Fundação Bienal de São Paulo/Divulgação

O Brasil chega à 61ª Bienal de Veneza com uma exposição que não quer apenas ser vista, mas, também, atravessada. Intitulado Comigo ninguém pode, o projeto curatorial de Diane Lima reúne Adriana Varejão e Rosana Paulino em um diálogo inédito que ocupa integralmente o Pavilhão do Brasil, transformando arquitetura, corpo e memória em uma mesma matéria narrativa.

Em Comigo ninguém pode, a arquitetura do Pavilhão do Brasil deixa de ser cenário e passa a funcionar como parte ativa da exposição, atravessada por obras de Adriana Varejão e Rosana Paulino | Foto: Rafa Jacinto, Fundação Bienal de São Paulo/Divulgação

O ponto de partida é a planta popular que dá nome à mostra: associada tanto à proteção quanto à toxicidade. A partir dessa ambiguidade, a exposição propõe uma leitura não linear do tempo, onde natureza, espiritualidade e história colonial deixam de aparecer como campos separados. Em vez disso, tudo se mistura em uma experiência imersiva que tensiona o próprio edifício modernista projetado por Giancarlo Palanti, Henrique Mindlin e Walmyr Lima Amaral em 1964.

Mais do que receber obras, o pavilhão passa a funcionar como parte ativa da mostra. Pinturas, esculturas, desenhos e instalações se espalham pelo espaço em relações simbólicas, matéricas e cromáticas, criando rupturas visuais que atravessam paredes, teto, fachada e circulação. Trabalhos como Still Life amid Ruin (2026), de Adriana Varejão, e Aracnes (1996-2026), de Rosana Paulino, literalmente ocupam e reconfiguram a arquitetura.

A instalação Aracnes (1996-2026), de Rosana Paulino, ocupa o centro do Pavilhão do Brasil na 61ª Bienal de Veneza, cercada por desenhos da artista que articulam corpo, memória e reconstrução | Foto: Rafa Jacinto, Fundação Bienal de São Paulo/Divulgação

“O projeto faz um convite para que nos conectemos a uma frequência que abre a possibilidade de ver o transcendente no visível”, afirma Diane. “Comigo ninguém pode reflete sobre as manifestações da fé e da espiritualidade na cultura brasileira, destacando sua estreita relação com a natureza e com as dimensões mais-que-humanas. Ao reescrever a história, a exposição reconstrói as paredes da memória e atribui novos significados às ruínas e feridas coloniais através de seres fantásticos, celestiais e mágicos”.

A obra Une petite mort (2005), de Adriana Varejão, aparece ao lado da instalação mural Still Life amid Ruin (2026), que atravessa a arquitetura do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza | Foto: Rafa Jacinto, Fundação Bienal de São Paulo/Divulgação

O encontro entre as artistas também aproxima duas das produções criativas mais contundentes do país quando o assunto é colonialismo e suas permanências. “Meu trabalho e o de Rosana Paulino se cruzam na potência das feridas coloniais”, afirma Adriana. “Estou trabalhando intensamente em muitas obras novas para o Pavilhão que foram pensadas em diálogo direto com a arquitetura do edifício. As pinturas se distribuem de maneira imprevisível no espaço, assumindo um caráter instalativo.”

A instalação Tecelãs (2003), de Rosana Paulino, reúne cerâmica, tecido e repetição em uma composição que atravessa temas como continuidade, memória e reconstrução | Foto: Rafa Jacinto, Fundação Bienal de São Paulo/Divulgação

Já Rosana Paulino leva à Bienal obras que articulam corpo, continuidade e reconstrução a partir de perspectivas femininas negras. “Estar no Pavilhão do Brasil em Veneza, ao lado de Adriana Varejão, é a oportunidade de investigar feridas coloniais a partir de perspectivas femininas distintas que se encontram em um diálogo inédito. Em trabalhos como Aracnes e Ninfa tecendo o casulo, retomo a imagem da mulher negra como aquela que extrai do próprio corpo a matéria para sustentar a continuidade, obras que afirmam a força da reconstrução, da sutura e da permanência diante da violência histórica”.

As obras Une petite mort (2005), de Adriana Varejão, e Comigo ninguém pode (2026), de Rosana Paulino, aparecem em diálogo no Pavilhão do Brasil da 61ª Bienal de Veneza | Foto: Rafa Jacinto, Fundação Bienal de São Paulo/Divulgação

Entre novas produções e trabalhos históricos, o resultado se afasta da lógica tradicional de exposição. Há menos interesse em explicar e mais em criar atmosfera. “Desde o momento em que surgiu a ideia de convidar Rosana e Adriana, meu maior desafio foi apresentá-las como uma composição, uma única voz repleta de harmonias e dissonâncias, de modo que este gesto e as nossas próprias presenças tivessem, como em um jazz, uma dimensão muito mais performativa e sensorial do que didática sobre a nossa história”, resume Diane Lima.

Em Comigo ninguém pode, obras de Adriana Varejão e Rosana Paulino atravessam paredes, teto e circulação do Pavilhão do Brasil, transformando a arquitetura em parte da narrativa expositiva | Foto: Rafa Jacinto, Fundação Bienal de São Paulo/Divulgação

O Pavilhão do Brasil na 61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia abre ao público entre 9 de maio e 22 de novembro de 2026, nos Giardini Napoleonici, em Veneza.

Vista da instalação do Pavilhão do Brasil na 61ª Bienal de Veneza, com pinturas de teto de Adriana Varejão, a instalação mural Still Life amid Ruin (2026) e, ao centro, Aracnes (1996-2026), de Rosana Paulino | Foto: Rafa Jacinto, Fundação Bienal de São Paulo/Divulgação

Leia mais