Entre arte e política: os destaques da Bienal de Veneza 2026

Em relato para a IT•HOME, Graziela Martine e Patrícia Amorim de Souza revisitam os pavilhões, exposições e debates que marcaram a Bienal de Veneza 2026 dentro e fora dos espaços expositivos
A chegada aos Giardini concentra parte da experiência da Bienal, onde arquitetura, paisagismo e intervenções temporárias ajudam a construir a narrativa desta edição | Foto: Andrea Avezzù/Divulgação

Antes mesmo de entrar nos Giardini ou no Arsenale, já era possível perceber que esta não seria uma edição qualquer da Bienal de Veneza. A presença policial era constante. Ruas bloqueadas, manifestações e grupos organizados de protesto apareciam em diferentes pontos da cidade.

Não era algo restrito aos espaços expositivos. Os protestos surgiam também em áreas de grande circulação, próximas a lojas, escritórios ligados à Bienal e percursos feitos diariamente pelos visitantes. Em muitos momentos, a sensação era de que as discussões presentes nas exposições continuavam acontecendo do lado de fora.

Essa atmosfera acabou marcando profundamente nossa experiência da Bienal de 2026. Mais do que uma visita a exposições, a sensação era de estar acompanhando um retrato bastante direto do momento que estamos vivendo. Arte, política, identidade e território apareciam constantemente, dentro e fora dos pavilhões.

Entre os projetos que mais nos interessaram estavam os pavilhões da Arábia Saudita, Argentina, Índia, Itália, Espanha, Austrália e Áustria. Embora bastante distintos entre si, muitos deles pareciam compartilhar preocupações relacionadas à memória, ao pertencimento, às transformações sociais e à construção de narrativas em um mundo cada vez mais complexo.

A performance de Florentina Holzinger transformou o pavilhão austríaco em um dos pontos mais debatidos da Bienal, provocando reações intensas entre público e especialistas | Foto: Andrea Avezzù/Divulgação

O pavilhão austríaco, com a artista Florentina Holzinger, foi um dos assuntos mais comentados da edição. Sua proposta performática provocou reações intensas e dividiu opiniões, tornando-se presença constante nas conversas entre curadores, colecionadores, jornalistas e visitantes ao longo da semana.

A instalação do pavilhão japonês espalha dezenas de bebês pelo espaço, criando uma cena simultaneamente lúdica e perturbadora que permanece na memória dos visitantes | Foto: Luca Zambelli Bais/Divulgação

Já o pavilhão japonês deixou uma imagem que permaneceu conosco mesmo dias depois da visita. A presença de dezenas de bebês espalhados pelo espaço criava uma cena ao mesmo tempo curiosa e inquietante. Não se tratava necessariamente do projeto mais comentado da Bienal, mas certamente de uma daquelas imagens que continuam voltando à memória muito tempo depois.

Como acontece frequentemente em Veneza, algumas das experiências mais marcantes estavam espalhadas pela cidade.
A exposição de Lorna Simpson, na Punta della Dogana, foi uma delas. Suas obras abordam questões ligadas à memória, à identidade e à representação com enorme sofisticação. Em um momento em que muitas exposições apostam no impacto imediato, seu trabalho parece convidar o visitante a permanecer mais tempo diante das imagens, observando suas camadas e complexidades.

A mostra Third Person, de Lorna Simpson, reúne pinturas, colagens, esculturas e instalações que investigam memória, identidade e os limites da representação contemporânea | Foto: Divulgação

Jenny Saville, no Ca’ Pesaro, ofereceu outro dos grandes momentos desta temporada. Ver suas pinturas presencialmente é uma experiência muito diferente de observá-las em livros ou reproduções. A escala das obras, a materialidade da tinta e a presença física das figuras reafirmam a potência da pintura contemporânea.

No Palazzo Manfrin, Anish Kapoor apresentou uma exposição que chamou atenção pela capacidade de desafiar a percepção do visitante. Seus trabalhos continuam produzindo aquela sensação rara de dúvida e fascínio, em que o olhar tenta compreender exatamente o que está vendo, sem nunca chegar a uma resposta definitiva.

A exposição de Anish Kapoor no Palazzo Manfrin reúne obras que desafiam a percepção e transformam o espaço em uma experiência de dúvida, escala e fascínio visual | Foto: Divulgação

Depois de dias atravessando a cidade entre os Giardini, o Arsenale e as inúmeras exposições paralelas, o que ficou não foi uma conclusão única sobre a Bienal de 2026. Ficaram imagens, conversas e experiências muito distintas entre si. Os protestos nas ruas, os pavilhões que provocaram debates, as exposições que exigiam um olhar mais demorado e os encontros inesperados que só acontecem em Veneza.

Talvez seja essa a verdadeira riqueza da Bienal: permitir que cada visitante construa sua própria narrativa da cidade e da arte naquele momento.

Patrícia Amorim de Souza e Graziela Martine, sócias da Art Homage, acompanharam a Bienal de Veneza 2026 para mapear os principais debates, exposições e tendências da cena artística internacional | Foto: Reprodução/@patriciaamorimdesouza/Instagram

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