
Entre as referências ao campo e uma leitura contemporânea do morar, a Casa Coral Celeiro Alvorada, assinada por Nildo José (@nildojose_arquitetura) para a CASACOR São Paulo 2026, parte da memória como elemento estruturador do projeto. Inspirado na história do Parque da Água Branca e em lembranças ligadas à figura paterna, o arquiteto propõe uma casa em que arquitetura, arte e design traduzem ideias de permanência, afeto e identidade.

Com 213 m², o percurso começa por uma galeria marcada por tons profundos e uma atmosfera mais introspectiva, antecipando a experiência do restante do ambiente. A composição combina piso de tijolos, vigas aparentes de madeira tonalizada e uma paleta que transita entre marrom, caramelo, roxo e verde-água. Nesse conjunto, as tintas e efeitos decorativos da Coral deixam de cumprir apenas uma função de acabamento para reforçar a materialidade do espaço, com destaque para a aplicação do efeito texturizado Coral Granos nas paredes e, pela primeira vez na mostra, também no teto.

No centro da proposta está uma biblioteca com cerca de 4 mil livros, que organiza toda a arquitetura do ambiente. A estrutura abriga fotografias, poemas e objetos afetivos nos primeiros nichos e, ao longo de sua extensão, incorpora a cozinha e a sala de jantar de maneira quase silenciosa. Cortando esse grande volume, uma escada helicoidal em tom berinjela assume protagonismo escultórico, enquanto o pé-direito duplo e as amplas janelas ampliam a relação entre o interior e a paisagem do parque.

A seleção de materiais reforça a narrativa proposta pelo arquiteto. Madeira, pedra, fibras naturais e superfícies artesanais aparecem ao lado de obras de Portinari, Lorenzato, Barrão e David Almeida, além de peças de designers como Sergio Rodrigues, Lina Bo Bardi, Claudia Moreira Salles e Carlos Motta. A lareira esculpida manualmente em travertino bruto, desenvolvida exclusivamente para o ambiente, incorpora símbolos ligados ao universo rural e às memórias familiares que inspiraram o projeto.

Na área íntima, uma parede curva conduz ao dormitório, onde a paleta se torna ainda mais serena para favorecer uma atmosfera de acolhimento. O banheiro, concebido para privilegiar a ventilação natural e a conexão visual com a vegetação externa, reforça essa relação entre arquitetura e paisagem. Em vez de recorrer a uma representação literal da casa de fazenda, Nildo José constrói uma interpretação sensível das origens, fazendo da cor, da matéria e das lembranças elementos permanentes da experiência espacial.




