
Mais do que uma coleção, o Acervo Jorge Feitosa se apresenta como um exercício de memória – não apenas individual, mas material. Em cartaz no Mata Lab, o conjunto reúne obras autorais e objetos históricos garimpados ao longo de duas décadas pelo artista Jorge Feitosa e o seu marido, o executivo Fábio Garcia.
Instalado no complexo Cidade Matarazzo, o projeto ocupa o espaço com uma narrativa que atravessa tempos, geografias e afetos. São peças adquiridas em antiquários e feiras no Brasil, Europa, Ásia e Estados Unidos – de cerâmicas e cristais raros a objetos de design – que agora deixam o âmbito privado para se tornar experiência pública.
A curadoria parte de um conceito central: a “Memória da Matéria”. Para Jorge, os objetos não são inertes, mas carregam vestígios de uso, passagem e significado. Essa leitura orienta a seleção e também a forma como o acervo é apresentado, com fichas que revelam procedência, contexto e os critérios por trás de cada escolha.

Essa abordagem dialoga com a filosofia do Wabi-Sabi, ao valorizar o tempo, a imperfeição e o desgaste como parte da beleza. Em vez de buscar o novo como ideal, o acervo propõe um olhar mais atento ao que já existiu – e ao que resiste. Aqui, o uso não é perda, mas construção de história.

Entre os destaques estão peças como um vaso de cristal doublé azul-cobalto das extintas Cristalleries de Nancy, castiçais belgas da Val Saint Lambert e exemplares de porcelana vintage da Yves Saint Laurent produzidos no Japão. A produção brasileira também marca presença, com objetos que evidenciam a força da manufatura nacional ao longo do século XX.

A exposição também inclui trabalhos recentes do artista, como pinturas, aquarelas e cerâmicas, criando um diálogo entre passado e presente. O resultado é um conjunto híbrido, onde obra autoral e objeto histórico coexistem sem hierarquia, conectados por uma mesma lógica sensível.

Mais do que um projeto expositivo ou comercial, o acervo aponta para uma mudança de perspectiva: o luxo deixa de estar associado à novidade e passa a residir na narrativa. Ao circular entre novos olhares e novos espaços, cada peça reafirma seu papel como portadora de memória – e como fragmento ativo de cultura.




