
Durante anos, boa parte da arquitetura residencial do litoral brasileiro esteve associada à verticalização intensa e a edifícios concebidos para se destacar na paisagem. Aos poucos, porém, essa lógica começa a dividir espaço com projetos que buscam justamente o movimento contrário: integrar-se ao território, estabelecer uma relação mais cuidadosa com a natureza e transformar o entorno em parte da experiência cotidiana de morar.
É nessa direção que segue o Ená, empreendimento residencial assinado por Jayme Bernardo (@jaymebernardoarquitetos) na Praia do Estaleiro, em Balneário Camboriú (SC). Lançado em novembro de 2024, com entrega prevista para 2027, o edifício reúne apenas seis residências distribuídas em quatro pavimentos. Entre apartamentos garden, unidades tipo e coberturas duplex, as plantas variam de 402 m² a 649 m² e compartilham uma mesma premissa arquitetônica: grandes terraços, piscinas privativas e uma relação contínua entre os ambientes internos e o cenário natural.
Mais do que aproveitar uma localização privilegiada diante do mar, a proposta procura construir uma relação de pertencimento com o lugar. “Todo projeto começa pela leitura do lugar. No caso do Ená, a singularidade da Praia do Estaleiro foi o ponto de partida para todas as decisões arquitetônicas. Existe ali uma atmosfera muito diferente daquela associada ao centro de Balneário Camboriú: uma relação mais próxima com a natureza, com o silêncio e a paisagem. Desde o início, buscamos criar uma arquitetura que ampliasse essa experiência”, afirma Jayme Bernardo.

Essa leitura do território também dialoga com uma transformação observada no mercado residencial de alto padrão. Para Tiago Cabral, CEO da ABC.inc & EMBRALOT, incorporadora responsável pelo empreendimento, o perfil do comprador mudou nos últimos anos e passou a valorizar atributos menos ligados ao excesso e mais associados à experiência cotidiana.
“O comprador de alto padrão ficou mais sofisticado, mais informado e mais seletivo. Antes, o luxo era muito associado à metragem e aos acabamentos nobres. Hoje, esses atributos continuam importantes, mas deixaram de ser suficientes. Esse público busca projetos com identidade, raridade, privacidade, bem-estar e uma relação mais verdadeira com o entorno”, afirma.
Segundo ele, esse movimento ajuda a explicar por que projetos autorais ganharam protagonismo em cidades do litoral catarinense. “Quando um empreendimento nasce com uma assinatura reconhecida, ele deixa de ser apenas um produto imobiliário e passa a ter uma narrativa, uma identidade e uma visão de longo prazo.”
Biofilia como estratégia arquitetônica

Embora a presença da vegetação seja um dos aspectos mais evidentes do Ená, ela não aparece como complemento estético da arquitetura. Pelo contrário: foi incorporada desde os primeiros estudos do projeto como parte da própria composição espacial.
“A biofilia esteve presente desde os primeiros estudos. Não pensamos a vegetação como um complemento da arquitetura, mas como parte da sua construção. Ela ajuda a criar conforto ambiental, privacidade, bem-estar e uma relação mais natural entre o edifício e a paisagem”, explica Jayme.
Essa decisão se materializa em fachadas vegetadas, jardins incorporados aos volumes e percursos permeados por áreas verdes. A vegetação também atua como filtro entre os espaços privados e o horizonte, contribuindo para o conforto térmico, a privacidade e a percepção de conexão entre arquitetura e natureza.

Ao invés de usar a biofilia apenas como recurso cenográfico, o projeto transforma o paisagismo em elemento construtivo, dissolvendo os limites entre o edifício e seu entorno. Essa estratégia acompanha uma demanda crescente por ambientes que promovam bem-estar e desaceleração.
Conforme Tiago, essa mudança de comportamento passou a orientar o desenvolvimento dos empreendimentos desde sua concepção. “Não se trata apenas de incluir áreas verdes ou espaços de lazer, mas de pensar a moradia como um refúgio. Isso influencia a escolha dos terrenos, a ventilação, a luz natural, os materiais e o paisagismo.”
Curvas que respondem à paisagem

As curvas que definem as lajes e varandas também nasceram da observação do território. Em vez de usar uma linguagem marcada pela rigidez geométrica, Jayme Bernardo buscou interpretar o desenho sinuoso da costa, da vegetação e do relevo para construir uma arquitetura de linhas contínuas.
“Quando observamos a paisagem costeira, percebemos que ela é marcada por movimentos suaves e orgânicos. Trouxemos essa mesma fluidez para a arquitetura. Além de contribuir para uma identidade visual marcante, as curvas ajudam a suavizar a escala da edificação e reforçam a sensação de continuidade entre arquitetura e natureza.”
Essa fluidez também aparece na organização dos interiores. Os ambientes sociais se abrem integralmente para os terraços, fazendo com que o litoral deixe de funcionar apenas como pano de fundo e passe a integrar a experiência de morar.
“A intenção era permitir que a paisagem deixasse de ser apenas uma vista privilegiada e passasse a fazer parte da experiência cotidiana dos moradores. Em muitos momentos, a percepção é de que os limites entre interior e exterior se tornam quase imperceptíveis”, explica o arquiteto.
Essa integração também orienta o projeto de interiores, igualmente assinado por Jayme Bernardo. Materiais como pedras naturais, madeira e elementos artesanais brasileiros prolongam para dentro das residências a mesma linguagem orgânica presente na arquitetura, construindo ambientes que privilegiam texturas, iluminação natural e uma atmosfera sensorial em vez de soluções marcadas pelo excesso decorativo.
A casa reinventada em altura

Essa mesma lógica aparece na escolha da tipologia do empreendimento. Em vez de apartamentos convencionais, o projeto adota o conceito de “mansão suspensa”, expressão que ganhou espaço no mercado imobiliário para definir unidades que reproduzem características tradicionalmente associadas às casas.
No Ená, essa decisão vai além da metragem. A proposta procura oferecer circulação mais fluida, amplos terraços, integração entre áreas internas e externas e um número reduzido de moradores, criando uma experiência mais próxima da habitação unifamiliar. “A mansão suspensa permite reunir atributos que normalmente associamos a uma residência exclusiva. Ela oferece amplitude, privacidade, personalização e uma relação muito mais generosa com os espaços”, afirma Jayme.

A diversidade de tipologias reforça essa proposta. Enquanto os apartamentos garden ampliam a relação com o terreno e os espaços externos, as outras unidades privilegiam a fluidez entre os ambientes sociais e o horizonte marítimo, e as coberturas duplex acrescentam uma ocupação vertical que preserva a sensação de privacidade característica das casas unifamiliares. Em comum, todas as plantas foram concebidas para favorecer a integração entre arquitetura, paisagem e modos contemporâneos de habitar.
Limitar o edifício a apenas seis residências também faz parte dessa estratégia. “Quando optamos por desenvolver apenas seis residências, estávamos valorizando a raridade dessa experiência. São seis famílias com o privilégio de habitar um lugar único, em uma relação direta com o mar, o entorno e o silêncio da Praia do Estaleiro.”
Na avaliação de Tiago, essa tipologia responde diretamente às mudanças do morar contemporâneo. “O comprador quer entender como aquele projeto transformará seus momentos de lazer e descanso: como será acordar, receber amigos, contemplar o litoral, circular pelos ambientes e viver com privacidade, conforto e conexão com a natureza.”
Arquitetura que constrói paisagem

Se o projeto nasce da leitura do território, ele também pretende contribuir para ela. Para Tiago, a arquitetura desempenha um papel importante na construção da identidade urbana das cidades que vivem intenso processo de transformação.
“A arquitetura é uma das formas mais visíveis de reputação urbana. Quando pensamos em edifícios atemporais, entendemos que eles estarão ali durante muitos anos, qualificando a paisagem, criando referências estéticas e valorizando permanentemente o entorno.”
Essa preocupação com a permanência também orientou a escolha de uma materialidade sóbria e atemporal. Em vez de recorrer a soluções de forte apelo visual, o projeto privilegia superfícies minerais, texturas naturais e uma paleta neutra capaz de atravessar o tempo sem perder atualidade.
Para Jayme, essa é uma das principais características do luxo contemporâneo. “Hoje, atributos como privacidade, bem-estar, conforto, silêncio e conexão com a natureza têm um valor enorme. As pessoas buscam espaços que façam sentido para a vida cotidiana e proporcionem uma experiência genuína de morar.”
Para o executivo, edifícios concebidos a partir dessa perspectiva deixam de responder apenas às demandas do mercado e passam a contribuir para a construção da identidade das cidades onde se inserem, consolidando referências capazes de permanecer relevantes ao longo do tempo.
Ao olhar para o futuro, o arquiteto resume a intenção do projeto em uma única expectativa. “Gostaria que o Ená fosse percebido como um projeto que soube interpretar com sensibilidade o lugar. Acredito que os melhores projetos são aqueles que continuam fazendo sentido muitos anos depois de serem construídos.”
Mais do que apresentar uma nova linguagem formal para o litoral catarinense, o Ená sintetiza uma mudança mais ampla na arquitetura residencial contemporânea. Em vez de competir com o entorno, o projeto procura estabelecer uma relação de pertencimento com o território, fazendo da biofilia, da materialidade e da experiência cotidiana de morar seus principais elementos de projeto.




