Como o modernismo brasileiro influencia a arquitetura contemporânea

Da ruptura iniciada por Gregori Warchavchik ao legado de nomes como Lina Bo Bardi, a arquitetura modernista segue influenciando projetos contemporâneos e ajudando a construir a identidade brasileira
Organizada em volumes independentes e aberta para a paisagem do Cerrado, a Casa Cata-vento, de Samuel Lamas, reflete uma leitura contemporânea dos princípios do modernismo brasileiro | Foto: Divulgação

Em 3 de março de 1994, Gal Costa, magra, empoderada e poderosa, canta Brasil, no Rio de Janeiro, com os seios à mostra. O gesto provoca uma simbiose de aplausos e vaias, ocupando as manchetes do país. A canção, composta por Cazuza, George Israel e Nilo Romero – um manifesto contra as hipocrisias da elite e da política – já era um hino de protesto desde 1988, quando embalou a abertura da novela Vale Tudo na voz da diva da Tropicália. Para quem viveu aquele momento, basta ler estas linhas para que a cena retorne à memória; para os mais jovens, vale buscar o registro e testemunhar sua força.

Sessenta e um anos antes, outro ato de ruptura acontecia na Rua Santa Cruz, em São Paulo. Entre 1927 e 1928, o arquiteto ucraniano Gregori Warchavchik, radicado no Brasil, ergueu o primeiro marco do modernismo arquitetônico no país: um cubo branco, sóbrio e radical. Ali, cansado da importação de modelos europeus, rompeu com a ornamentação do Norte Global e com tudo que marcava a arquitetura brasileira, amargurada pela falta de identidade e que trazia, no seu caldeirão tupiniquim, uma mistura míope de influências. Colonialismo, Neoclassicismo, Ecletismo, Art Nouveau e Art Déco, além da Beaux-Arts, uma vertente direta das escolas de Belas Artes europeias, especialmente a École des Beaux-Arts, de Paris, misturavam-se dentro e fora dos palacetes, mansões e chácaras das famílias ricas.

Aquela colcha de retalhos importada refletia uma angústia latente: o Brasil carecia de identidade. Como na canção de Cazuza, a arquitetura clamava por autenticidade e urgência. “Brasil, mostra a tua cara / Quero ver quem paga pra gente ficar assim” – nos versos, a mesma demanda que impulsionou a virada arquitetônica rumo a um projeto verdadeiramente brasileiro.

Virada arquitetônica: os efeitos concretos da Semana de 22

SESC Pompeia projetado por Lina Bo Bardi entre 1977 e 1982: o local ocupou uma antiga fábrica. O The New York Times o elegeu como uma das 25 obras arquitetônicas mais importantes construídas após a Segunda Guerra Mundial | Foto: Divulgação

A ruptura com os modelos europeus ganhou força a partir da Semana de Arte Moderna de 1922, realizada no Theatro Municipal de São Paulo. Entre 13 e 17 de fevereiro, o movimento sacudiu a cena cultural brasileira e deixou marcas profundas nas artes, na literatura e, poucos anos depois, também na arquitetura.

Foi nesse contexto que nomes como Gregori Warchavchik, Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha, Lina Bo Bardi, Affonso Eduardo Reidy e João Batista Vilanova Artigas se colocaram à frente de uma transformação que entendia o arquiteto não apenas como criador de formas, mas como agente social e político. Nas entrelinhas, denunciaram a arquitetura acadêmica como alienada, voltada à elite e descolada do povo.

“... Não me ofereceram nenhum cigarro, fiquei na porta estacionando os carros. Não me elegeram chefe de nada, o meu cartão de crédito é uma navalha”, reflete, em paralelo, a poesia cortante de Cazuza: uma crítica cortante à dominação econômica e cultural das elites já tão enraizada nos interiores e exteriores das belas e intocáveis casas.

Para o crítico Guilherme Wisnik, que foi aluno e trabalhou no escritório de Paulo Mendes da Rocha, o vencedor do prêmio Pritzker de 2006 sintetiza essa herança. Modernista da terceira geração, sua obra dá protagonismo à geometria, às estruturas aparentes e ao concreto armado como expressão da indústria nacional. “Tal como Artigas e Lina Bo Bardi, a arquitetura do Paulo se aproxima do Cinema Novo e da ‘estética da fome’, da ideia de uma arquitetura feita com recursos que não são high-tech e que expressam a realidade do país e transformam isso em uma forma e linguagem agressivamente forte”, analisa.

Nesse paralelo, a música de Cazuza e a arquitetura modernista convergem como expressões de denúncia e esperança: ambas revelam as feridas sociais e, ao mesmo tempo, projetam a possibilidade de um país mais justo.

Brutalismo: do béton brut ao concreto brasileiro

Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP), projetada por Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi: arquitetura brutalista, marcada pela imponência volumétrica em concreto aparente e a fluidez espacial | Foto: Divulgação

Surgido nos anos 1950, o brutalismo se destacou pelo uso expressivo do concreto aparente (do francês béton brut), pelas formas geométricas imponentes e por uma estética crua, direta e funcional. Foi, em essência, a resposta arquitetônica à urgência de reconstrução no pós-guerra europeu.

No Brasil, o concreto já ganhava protagonismo desde os anos 1930, mas foi entre as décadas de 1940 e 1970 que o brutalismo se firmou como linguagem. Enquanto Oscar Niemeyer desenvolvia um modernismo escultural e poético, comprometido com o cotidiano urbano, a Escola Paulista – liderada por Vilanova Artigas e Paulo Mendes da Rocha – adotava a contundência brutalista: espaços amplos, abertos, coletivos e de impacto visual, marcados por vigas, pilares e lajes expostos, sem retoques, como manifesto de racionalidade e engajamento social.

O MuBE, projetado por Paulo Mendes da Rocha e inaugurado em maio de 1995, é integrado a um jardim planejado por Burle Marx, com três áreas internas: Grande Salão, Sala Pinacoteca e Sala Burle Marx, além do auditório Pedro Piva (capacidade para 192 pessoas) | Foto: Nelson Kon/Divulgação

Curiosamente, esse brutalismo europeu dialoga, em conceito, com o Brasil cantado por Cazuza. Ambos expressam utopias: a arquitetura como desejo de reconstrução social e ética; a música como denúncia de um país frustrado em suas promessas de redemocratização. De um lado, a fé no coletivo; do outro, o grito de indignação diante das fraturas expostas das desigualdades. Como resume Cazuza em versos ácidos: “Não me sortearam a garota do Fantástico | Não me subornaram, será que é o meu fim | Ver TV a cores na Taba de um índio, programada pra só dizer sim.

Modernismo contemporâneo

O concreto aparente conduz a linguagem da Casa Pimenta Rosa, assinada pelo escritório Stemmer Rodrigues, enquanto grandes aberturas e pátios de luz reforçam a integração entre interior e exterior, uma das marcas da arquitetura brasileira moderna | Foto: Gabriel Konrath/Divulgação

Oitenta e cinco anos depois, considerando que o Modernismo Brasileiro teve seu auge entre as décadas de 1940 e 1950, seus impactos ainda reverberam na arquitetura contemporânea. Escritórios como FGMF, Bloco Arquitetos, Suíte Arquitetos, Stemmer Rodrigues e Samuel Lamas resgatam a objetividade do movimento que redefiniu o olhar sobre o país e a si mesmo, atualizando-o em diálogo com temas como sustentabilidade, integração dos espaços sociais e a valorização de materiais e mobiliários de matriz modernista.

Assim como Cazuza se colocou como cronista do seu tempo, denunciando injustiças e exigindo um país melhor, os ícones da arquitetura modernista também mostraram que era possível sonhar com uma nação mais igualitária, onde a arquitetura fosse reconhecida como necessidade essencial, acessível a todas as camadas sociais.

Entre alertas e protestos, em soluções coletivas ou individuais, seguimos sem perder a sensibilidade para nos indignar e lutar pelo que acreditamos: um mundo comprometido com o bem comum, no qual o exclusivo – ou seja, aquilo que exclui – seja definitivamente riscado do argumento diário contemporâneo.

FGMF: pátio central de convivência, laje de piso e teto jardim

“Sanduiche entre lajes”: Fernando Forte ressalta, na Casa Colina, que o projeto parte de uma premissa simples: uma laje de piso e uma de cobertura, conectado por uma rampa ao solo, de forma que o terreno “sobe sobre a casa”. Os materiais? Destacam os volumes por meio da madeira, do vidro e da fachada ventilada ebanizada, que se transforma em uma escada que passa por fora das lajes e cria uma grande suíte superior | Foto: Rafaella Netto/Divulgação

O escritório FGMF (@fgmf), liderado por Fernando Forte, Lourenço Gimenes e Rodrigo Marcondes Ferraz (todos formados na FAU-USP), traz no DNA a influência direta do Modernismo Brasileiro e a constante busca por equilíbrio entre arquitetura e urbanismo.

Com sensibilidade em ouvir quem irá morar durante muito tempo nas casas que projetam, eles criaram a Casa Colina. “É um lugar de veraneio, pensado em estreita relação com o entorno, indo aos extemos de recuo do lote e criando um pátio central de convivência, ligeiramente abrigado da rua, por meio de uma implantação cuidadosa de níveis”, detalha Fernando Forte.

Vista de cima, a residência se revela como uma peça bordada de verde, “que respeita a nossa herança modernista, com concreto aparente, grandes vãos, materiais brutos e naturais, mas com um passo além: a grande conexão com o contexto”, enfatiza Forte.

Bloco Arquitetos: vigas à mostra e modernismo assumido

A remoção do forro revelou a estrutura original do edifício e transformou vigas aparentes em protagonistas do projeto, reforçando o diálogo entre arquitetura modernista, arte contemporânea e mobiliário brasileiro icônico | Foto: Maíra Acayaba/Divulgação

Daniel Mangabeira, Henrique Coutinho e Matheus Seco, do BLOCO Arquitetos (@bloco_arq), receberam a missão instigante de repaginar um apartamento em Higienópolis, São Paulo, em um edifício assinado por Rubens Camargo Monteiro, em que o teto aparentava ser do tipo “laje dupla”. “Entretanto, uma análise mais minuciosa revelou que a camada inferior funcionava apenas como forro, sem papel estrutural”, detalha Daniel Mangabeira.

A remoção dessa superfície trouxe à tona uma composição impactante de vigas, que passou a ser celebrada no projeto de interiores. A base modernista estava ali, crua e presente.

Convencer os moradores dessa ideia foi o momento mais fácil, pois o trio de arquitetos teve a sorte de encontrar uma família que coleciona arte contemporânea e possui algumas das peças de mobiliário do modernismo brasileiro mais valiosas do mercado, que, lógico, foram incluídas no novo layout. Diga-se de passagem, o movimento arquitetônico teve o seu tentáculo na produção e no desenho de móveis.

As poltronas Mole e Oscar e o banco Mocho, de Sergio Rodrigues; a poltrona Jangada, de Jean Gillon; a mesa de centro Pétala e o banco Onda, desenhados por Jorge Zalszupin, além de um banco de madeira de demolição que foi usado como aparador e para conectar o ambiente de estar com a sala de TV, deram match com a nova arquitetura do lugar.

Casa Cata-vento: gesto de permanência em arquitetura que se revela aos poucos

Casa Cata-vento: o desejo era claro: os moradores, inspirados pelas viagens ao Marrocos, sonhavam com uma casa térrea, fluida, organizada em torno de um pátio interno. Não buscavam uma cópia exótica, mas, sim, a reinvenção desse elemento como núcleo vital da residência. A resposta foi um projeto que funde tradição modernista brasileira com ecos mediterrâneos e um vocabulário contemporâneo, sensível ao clima e à paisagem do Cerrado | Foto: Divulgação

“Mostrar a cara do Brasil é olhar com atenção para o território, para as urgências do presente e para as potências do passado”, afirma Samuel Lamas, do escritório Equipe Lamas (@lamasdesign_). Para ele, a herança modernista, brutalista e vernacular segue atual, mas o que define a arquitetura contemporânea é a atitude: propor espaços atentos ao lugar, ao clima e às pessoas, acolhendo a diversidade e refletindo a pluralidade brasileira com liberdade e precisão.

Com esse espírito, nasceu a Casa Cata-vento, em Brasília, um refúgio integrado à natureza e, ao mesmo tempo, marcado por rigor autoral. Inspirada na racionalidade da Casa Itaipu, projeto anterior do escritório, a residência de 375 m² se organiza em quatro blocos independentes sobre uma malha modular. Cada volume abriga parte do programa: garagem e serviços; suíte principal, home office e sala de TV; dormitórios e ateliê; e, por fim, a área social, onde sala, jantar e cozinha se abrem ao jardim por grandes esquadrias deslizantes.

Implantada com leveza sobre o terreno de 2.000 m², a casa se deposita como um gesto delicado, evocando permanência sem perder a fluidez de uma obra que se revela em camadas.

SUÍTE: integração, madeira e materiais naturais

Integração entre interior e exterior, por meio de amplos painéis de vidro; mobiliário com design brasileiro icônico; layout fluido e sem barreiras visuais e valorização da luz e ventilação naturais: a veia modernista habita aqui | Foto: Ricardo Bassetti/Divulgação

Questionado sobre a relação entre a música Brasil e a postura social da arquitetura, Filipe Troncon é categórico: “A arquitetura tem o poder e a responsabilidade de expressar identidades e provocar reflexões. Assim como a música pode questionar padrões e abrir espaço para novas narrativas”, defende ele que, ao lado de Carolina Mauro e Daniela Frugiuele, lidera o escritório SUÍTE (@suite_arquitetos) com esse olhar crítico e atual.

Neste projeto, a proposta nasceu do desejo dos moradores de unir conforto contemporâneo à estética atemporal do modernismo brasileiro. O casal, apreciador de arte e design, buscava um lar acolhedor, expressivo e com ampla integração entre os espaços sociais. Linhas puras, materiais naturais e uma paleta suave veio para traduzir essa proposta.

Ao apresentar referências do modernismo nacional, o trio mostrou que era possível reinterpretar elementos clássicos de maneira mais leve, preservando a identidade forte que os moradores sempre almejaram.

Casa Pimenta Rosa: nau de concreto, prestes a navegar

A Casa Pimenta Rosa revela a síntese da arquitetura essencial proposta pelo Stemmer Rodrigues: uma nau de concreto que avança sobre a paisagem, integrando interior e exterior sob o mesmo gesto fluido | Foto: Gabriel Konrath/Divulgação

Em Xangri-lá, no Rio Grande do Sul, a Casa Pimenta Rosa parece se perder no horizonte, discreta diante do céu e integrada à paisagem. Compacta, térrea e funcional, foi concebida pelo escritório Stemmer Rodrigues Arquitetura (@stemmerrodrigues) para atender ao desejo dos moradores por uma casa prática e acolhedora, onde a área social se conecta à cozinha e à varanda gourmet.

O ponto marcante do projeto é a cobertura inclinada em laje aparente, que avança sobre a fachada principal como uma nau de concreto, “prestes a navegar”. Segundo Ingrid Stemmer, que assina o projeto ao lado de Paulo Henrique Rodrigues e Roberto Stemmer, a solução arquitetônica alia estética, sustentabilidade e economia, dispensando grandes investimentos em mobiliário e otimizando ao máximo os espaços.

Voltada para a frente do terreno, a área social se abre à sombra dos jacarandás já existentes, que parecem atravessar a casa. O concreto, protagonista da obra, garante objetividade estrutural e uma integração natural entre interior e exterior.

Leia mais