
O sobrado da Bela Vista que abriga a Casa de Acervo Oficina inicia um novo capítulo em sua trajetória de preservação da memória do Teatro Oficina. Após o ciclo de catalogação e digitalização de milhares de itens viabilizado pelo ProAC, o espaço agora anuncia o restauro de um conjunto de pinturas de Surubim Feliciano da Paixão, artista, compositor e figura central na história da companhia entre as décadas de 1970 e 1980.
Nascido no agreste pernambucano, Surubim transitou entre diferentes linguagens ao longo de sua atuação no Oficina: foi zelador, músico, cirandeiro, artista visual e articulador político dentro da companhia. Sua presença esteve ligada a um período importante de retomada do grupo após o retorno de integrantes do exílio, participando de movimentos culturais, apresentações musicais e processos criativos que marcaram a história do teatro brasileiro.
Entre suas contribuições mais emblemáticas está Tupi or not Tupi, canção que se tornou um dos hinos do Oficina e integrou a versão cinematográfica de O Rei da Vela, dirigida por José Celso Martinez Corrêa e Noilton Nunes. Já suas pinturas, produzidas principalmente nos anos 1980, nasceram em meio aos ensaios e leituras da companhia, ocupando suportes improvisados e refletindo a estética livre e experimental que atravessava o grupo naquele período.

“Zelador, cirandeiro, músico compositor, artista visual, liderança política e artística: a obra de Surubim Feliciano da Paixão nasceu do chão do teatro, da convivência com os atores, da música e da fé que ele trazia de Pernambuco”, afirma Elisete Jeremias, diretora geral da Casa de Acervo Oficina. “Restaurar seus quadros é devolver a uma de nossas inspirações e um dos nossos mestres o devido lugar de destaque.”
O processo de conservação será conduzido pela restauradora Valéria de Mendonça, ex-coordenadora do núcleo de conservação da Pinacoteca de São Paulo. A iniciativa começou oficialmente em abril deste ano e deve seguir pelos próximos meses, reunindo integrantes da Casa de Acervo Oficina em uma ação coletiva voltada à recuperação das obras e à continuidade do trabalho de preservação do espaço.

“Quando a Valéria veio aqui e viu os quadros do Surubim, ela se apaixonou na hora. Esse restauro não foi um trabalho encomendado – foi um encontro”, conta Victor Rosa, coordenador geral da Casa de Acervo Oficina. “Ela reconheceu a precariedade radical da pintura, o artista que usava o que tinha, e disse: ‘Temos que fazer de qualquer jeito!’. Agora o Surubim é o próximo movimento natural desse organismo vivo que é a Casa de Acervo Oficina.”
O projeto reforça uma discussão cada vez mais urgente sobre memória cultural, sustentabilidade de espaços independentes e continuidade de acervos vivos. Desde sua inauguração, a Casa de Acervo Oficina vem ampliando ações de catalogação, digitalização, visitas guiadas e circulação de peças históricas, consolidando-se como um espaço que conecta preservação, formação e acesso público.




