
Nem todo artista escolhe o seu universo. Às vezes, é ele que se impõe – com delicadeza e insistência. Com Glauber Rodram, foi assim. Administrador por formação, multiartista autodidata por vocação, ele constrói uma obra guiada por erudição sensível e um olhar que atravessa séculos. Em seus trabalhos, convivem o delírio de Salvador Dalí, a densidade simbólica de Hieronymus Bosch, as curvas orgânicas de Antoni Gaudí, o lirismo estrutural de Hector Guimard e Victor Horta, além do preciosismo de René Lalique e da sofisticação de Boucheron.

É, no entanto, no Art Nouveau que encontra sua morada: a linha sinuosa, o culto ao detalhe, a beleza como princípio.
O Borboletário (@meuborboletario) nasceu em um momento de suspensão do mundo. Durante a pandemia, ao deixar a carreira corporativa, Glauber mergulhou em um processo íntimo de introspecção. Foi quando recebeu a visita inesperada de uma borboleta amarela.

O gesto simples se tornou revelação. Como um portal, a imagem o conduziu à infância: o quintal amplo, as árvores frutíferas, os livros de arte abertos sobre a mesa, o piano ecoando pela casa, a avó restaurando imagens sacras. Entre elas, A Anunciação, de Fra Angelico.
Ali, compreendeu a metamorfose que se prenunciava. Suas musas seriam as borboletas. Ao se aprofundar nesse universo, descobriu um cenário alarmante – cerca de 40% das espécies conhecidas estão ameaçadas, algumas já com alterações de cor por perda de habitat.

A delicadeza, então, ganha urgência. O Borboletário surge como manifesto silencioso, onde Glauber transforma fios em asas, tranças em nervuras, texturas em memória viva. Seu trabalho é um chamado à contemplação e, ao mesmo tempo, um alerta sobre as transformações drásticas dos biomas.

Os materiais são escolhidos com rigor e consciência: sisal, rami, juta, lãs, veludos, chenile, seda, viscose e algodão. A base usa algodão reciclado da indústria têxtil; a fibra de bananeira vem de uma comunidade no norte de Minas Gerais; a seda é reaproveitada de casulos descartados. Cada fio carrega uma história e ganha novo sentido ao se tornar asa.
Uma obra inédita pode ultrapassar 300 horas de execução. Quilômetros de barbante, dezenas de metros de trança, centenas de detalhes. Um fazer quase litúrgico. Entre fios e silêncios, suas borboletas seguem em voo livre, frágeis, belas e necessárias.
“Cada borboleta é mais que representação: é memória, é celebração e uma manifesto delicado sobre a urgência ambiental” — Glauber Rodram




