Maison&Objet 2026: designers brasileiros se destacam em Paris

De mobiliário e iluminação a design têxtil, criadores brasileiros apresentam diferentes interpretações sobre matéria, território, memória e identidade na principal feira internacional de decoração e design
Mesas laterais da coleção Nascente, de Marcus Camargo em parceria com a Minith Design em Rochas, combinam bases cerâmicas e tampos produzidos a partir de fragmentos de rochas brasileiras, aproximando pesquisa material, artesanato e design contemporâneo | Foto: Divulgação

Entre 10 e 14 de setembro, Paris recebe mais uma edição da Maison&Objet, uma das principais feiras internacionais dedicadas ao design, à decoração e ao lifestyle. Realizado no Paris Nord Villepinte, o evento reúne marcas, designers, arquitetos, compradores e profissionais de diferentes partes do mundo e, neste ano, tem como tema “Pulse in Motion”, que propõe refletir sobre movimento, transformação, criatividade e novas conexões no design contemporâneo.

Para o Brasil, a edição de 2026 ganha uma dimensão especialmente relevante. Pelo quinto ano consecutivo, a ApexBrasil promove a participação brasileira na feira, reunindo 40 empresas no espaço dedicado ao país. Com curadoria do arquiteto e designer Bruno Simões, a exposição Brasil Nostalgic parte da memória, do modernismo, dos saberes artesanais e das referências culturais brasileiras para mostrar como esse repertório pode ser reinterpretado pelo design contemporâneo.

Entre os nomes confirmados está uma combinação de designers autorais, estúdios e marcas que trabalham com diferentes matérias e processos – da pedra à cerâmica, da madeira ao metal e da lã ao bordado. Confira cinco criadores brasileiros que estarão em Paris nesta edição:

Marcus Camargo

Na coleção Nascente, fragmentos de rochas e cerâmica mineral se encontram em uma composição inspirada em formas orgânicas, valorizando os veios naturais e as diferentes tonalidades da matéria | Foto: Divulgação

À frente do Estúdio Marcus Camargo, o designer goiano apresenta na Maison&Objet a coleção Nascente, desenvolvida em parceria com a Minith Design em Rochas. O projeto parte de uma investigação sobre resíduos da indústria de rochas ornamentais e inverte o processo tradicional de criação: em vez de definir primeiro a forma e depois escolher o material, é a própria matéria que conduz o desenho.

O percurso da coleção conecta diferentes territórios brasileiros. Resíduos minerais provenientes do beneficiamento de rochas em Pato Branco, no Paraná, são transformados em pó e levados à Cidade de Goiás, onde se misturam à argila pelas mãos da artesã Luiza Pessoa. Depois da queima, as peças retornam ao Paraná, onde recebem tampos produzidos com as próprias pedras que deram origem ao material. O resultado são mesas laterais que aproximam geologia, artesanato, indústria e design contemporâneo.

Luccas Iatauro

A luminária Inner Fruit, de Luccas Iatauro, combina madeira e aço em uma estrutura tridimensional formada por encaixes, com elementos metálicos que controlam a incidência da luz e criam diferentes efeitos visuais | Foto: Gianfranco Vacani/Divulgação

O designer Luccas Iatauro participa da Maison&Objet à frente da Puupa, sua marca autoral, com a luminária Inner Fruit, integrante da coleção Intra. A peça foi selecionada para o espaço brasileiro a partir da curadoria de Bruno Simões, que buscou trabalhos capazes de investigar as raízes do design vernacular brasileiro e apontar novos caminhos para a criação nacional.

Construída de madeira peroba mica e aço, Inner Fruit funciona como uma espécie de quebra-cabeça espacial, com estrutura baseada em encaixes e sem parafusos ou pregos aparentes. A composição abriga uma cúpula metálica cujas aberturas controlam a incidência da luz e criam diferentes percepções conforme o ponto de vista. O trabalho sintetiza a pesquisa de Iatauro sobre forma, matéria e sistemas construtivos, em uma prática que transita entre design, arte e arquitetura.

Tiago Braga

A luminária de piso Encruzilhada, da Oiamo Atelier, reúne módulos luminosos revestidos em algodão reciclado e lã natural, com bordados livres que criam desenhos, relevos e variações de textura ao longo da estrutura | Foto: Divulgação

Artista, designer e pesquisador gaúcho, Tiago Braga retorna à Maison&Objet com o Oiamo Atelier, criado por ele em 2019 no Rio Grande do Sul. Na edição de 2026, a marca apresenta novos desdobramentos da coleção Vento Pampo, desenvolvida a partir de uma pesquisa sobre o extremo sul do Brasil, seus territórios, seu clima, sua cultura material e seus saberes artesanais.

Entre os lançamentos estão a luminária de piso Encruzilhada, a tapeçaria Oro e novas almofadas. As peças levam o bordado para diferentes escalas e volumes, combinando algodão reciclado e lã natural em composições que aproximam arte têxtil, design de superfície e iluminação. A participação também dá continuidade à presença internacional da Oiamo, que esteve na Maison&Objet pela primeira vez em 2025.

A escultura luminosa Vigília, de Tiago Braga, integra a exposição Terra Entre e combina lã, volume e luz em uma peça de presença escultórica, que pontua o espaço e amplia a pesquisa do artista sobre a paisagem do extremo sul do Brasil | Foto: Lufe Torres/Divulgação

A passagem de Braga por Paris será ainda ampliada durante a Paris Design Week com Terra Entre: Camadas de uma paisagem de fronteira, sua primeira exposição individual na cidade. A instalação escultórica têxtil investiga os imaginários do Pampa e usa lã de ovelhas das raças Corriedale e Moura, trabalhada manualmente e mantida em suas tonalidades naturais.

Danilo Vale

Espelho de Danilo Vale combina formas arredondadas e revestimento em couro, valorizando a materialidade e o desenho orgânico da peça | Foto: Reprodução/Instagram

Outro nome confirmado diretamente no catálogo oficial da Maison&Objet é o designer brasiliense Danilo Vale, que participa da edição de setembro no espaço brasileiro, no Hall 5A. Formado em Design de Produto pela Universidade de Brasília, Vale desenvolve mobiliário autoral desde 2015 e também trabalha no desenvolvimento de produtos para a indústria.

Sua produção combina identidade, inovação e técnicas de fabricação, com uma atenção especial ao domínio do processo de pesquisa, desenvolvimento e produção. O trabalho do designer já circulou por importantes eventos e exposições em cidades como Milão, Paris, Nova York e São Paulo, e chega agora novamente ao circuito internacional por meio da Maison&Objet.

Mariana Bueno

A coleção Acaso Composto, da Casa da Abelha, reúne peças de madeira com geometrias variadas, explorando diferentes volumes e recortes a partir de uma mesma linguagem formal | Foto: Reprodução/Instagram

A participação brasileira também inclui a Casa da Abelha, ateliê de mobiliário autoral de Brasília fundado pela designer Mariana Bueno. Segundo a ApexBrasil, a marca apresenta em Paris a coleção Acaso Composto, que combina produção artesanal, materiais brasileiros e referências ligadas à memória e à cultura nacional.

A presença da Casa da Abelha reforça justamente uma das ideias centrais da participação brasileira nesta edição: mostrar que a identidade nacional não está restrita a uma única estética. Ao contrário, ela aparece na combinação entre diferentes territórios, materiais, técnicas e repertórios, transformados em produtos contemporâneos capazes de dialogar com o mercado internacional.

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