O Pavilhão da Bienal recebe a 22ª edição da SP-Arte, principal feira de arte e design do Brasil, entre 8 e 12 de abril. Com 180 expositores nacionais e internacionais, a edição deste ano chega marcada por uma data simbólica: dez anos da presença do design na feira. São 64 estúdios e marcas no setor, com 19 estreantes, incluindo três internacionais, distribuídos pelo térreo do Pavilhão em propostas que vão do mobiliário colecionável ao design experimental de pequena escala.

A grande novidade desta edição é o Design NOW, setor inédito dedicado ao mobiliário autoral independente, instalado no 3º andar do Pavilhão. Com dez estúdios – nove deles estreantes na feira – e curadoria de Livia Debbane ao lado de Patricia Dranoff, o NOW é um retrato da cena brasileira contemporânea: designers com ao menos dez anos de trajetória, abordagens materiais distintas e produção em pequena escala, cada um em mini-salas projetadas pelo escritório Superlimão.

Debbane assina também, pelo terceiro ano consecutivo, uma mostra no setor: Existe uma árvore, que pela primeira vez coloca a madeira como protagonista e percorre a história da marcenaria autoral brasileira a partir das espécies do território nacional.
É nesse contexto de maturidade e expansão que selecionamos alguns dos lançamentos mais relevantes desta edição – peças que traduzem, cada uma à sua maneira, o que o design brasileiro tem de mais inventivo, rigoroso e plural. Confira:
Série Sobrepor, Domingos Tótora e Gabriel De La Cruz

A Série Sobrepor marca a primeira colaboração entre o artista e designer Domingos Tótora e o designer Gabriel De La Cruz, reunindo mais de dez peças que transitam entre arte e design. O nome sintetiza tanto o método construtivo – camadas sucessivas de matéria sobrepostas – quanto o encontro de duas trajetórias. A matéria-prima central é o papelão descartado e coletado em Maria da Fé, Minas Gerais, que Tótora transforma em um composto de alta densidade por processos manuais, com terra incorporada à mistura como pigmento natural. Madeiras de demolição completam o vocabulário da série.
Coleção Garatuja, Estúdio Prosa

Estreantes na SP-Arte, Júlia Rovigo e Gabriel Pesca chegam à feira com a Coleção Garatuja – sete peças inéditas que colocam em diálogo a precisão geométrica e o gesto livre, quase instintivo. Sediado em Itajaí (SC), o Estúdio Prosa tem raízes na carpintaria naval clássica e usa a madeira como matéria de pesquisa e expressão. Na coleção, o encontro entre Muirapiranga – madeira amazônica – e Imbuia – da Mata Atlântica – cria contrastes cromáticos e táteis que ampliam a leitura das formas. Encaixes aparentes e processos manuais assumem papel central, tornando a técnica parte visível da linguagem.
Mesa Arco, Nicole e Luiza Toldi | Designers Group Gallery

Na Designers Group Gallery – primeira galeria brasileira dedicada ao functional art, reunindo 14 criadores em edições limitadas e séries especiais –, um dos destaques é a estreia do ateliê Nicole & Luiza Toldi no mobiliário colecionável. Mãe e filha chegam a SP-Arte com um conjunto de peças únicas, integralmente feitas à mão, que introduzem a porcelana como estrutura e discurso: cada objeto nasce como escultura e assume, simultaneamente, a condição de mobiliário, tensionando função e potência plástica sem abrir mão de nenhuma das duas.
Coleção Monumental, Erik Bonissato | BONNI

Vencedor do prêmio de Melhor Design na SP-Arte 2025, Erik Bonissato chega à edição deste ano com a Coleção Monumental – uma proposta que parte de um princípio claro: uma peça não deve apenas ocupar um espaço, mas estabelecer um território. Sofá, luminárias, mesas e assentos foram concebidos em torno de três pilares – presença escultórica, perenidade e escala emocional –, combinando proporções marcantes com processos artesanais. O destaque fica com o sofá Monumento, de volumes generosos e braços franzidos que revelam o gesto manual, e com as luminárias Vinco, cuja cúpula de algodão natural é moldada à mão em um processo de costura que pode levar até 30 dias.
Bar Urucum, Felipe Rezende | Mobília Puro | Designers Group Gallery

Do arquiteto Felipe Rezende, fundador da Mobília Puro, o bar Urucum reinventa o tradicional trolley doméstico como objeto autônomo e de forte presença visual. A peça combina estrutura de aço inox, interior em vermelho intenso e elementos de latão e acrílico – uma composição que dialoga diretamente com referências ao território brasileiro já no nome, inspirado no urucum, pigmento de origem indígena. Apresentado no estande da Designers Group Gallery, o bar integra uma seleção de 14 criadores que transitam entre design colecionável, arte e arquitetura.
Cadeira Trama, Rafael Espíndola | WOODING

“Da matéria nasce a forma” é o título da exposição com que a Wooding marca sua segunda participação no setor de Design da SP-Arte – e ele resume bem a filosofia do fundador Rafael Espíndola. Entre as oito peças inéditas apresentadas, a cadeira Trama sintetiza esse princípio com precisão: estrutura de madeira maciça e assento tramado à mão em cordão de papel reciclado torcido, com variações geométricas que fazem de cada exemplar uma peça singular.
Série Vitória, Cris Bertolucci

Luz como matéria, não como função. Essa é a premissa que orienta o trabalho de Cris Bertolucci há mais de uma década. Na SP-Arte 2026, o estúdio apresenta Corpos de Luz, exposição com três séries inéditas que investigam diferentes materialidades como agentes da experiência luminosa: Garoa, de cristal soprado pela técnica baloton, que refrata e multiplica os feixes de luz; Takai, de bambu e superfícies têxteis translúcidas, de dimensão arquitetônica; e Vitória, de linho, na qual franzidos, amarrações aparentes e sobreposições evocam silhuetas do vestuário histórico reinterpretadas pelo campo têxtil. Juntas, as séries constroem o que a designer define como um rococó contemporâneo – ornamentação e teatralidade depuradas pela consciência material.
Cadeira Clave, Marina Kurten Moreira | Designers Group Gallery

A cadeira Clave nasce de uma referência musical: a clave de sol, elemento que antecede a música e organiza sua leitura. Com apenas 25 anos, Marina Kurten Moreira chega à SP-Arte pela primeira vez – no espaço da Designers Group Gallery – com uma peça de traçado contínuo e fluido que se desdobra no espaço como gesto tridimensional. A estrutura de latão e alumínio fundidos recebe externamente pintura preta de alto brilho, em referência ao verniz dos pianos, enquanto o latão polido aparece internamente no encosto e nos pés, evocando os acabamentos dourados dos instrumentos. O resultado é uma cadeira de forte presença escultórica e arquitetônica – contemplativa por natureza, colecionável por vocação.
Coleção Alumiar, Santídio Pereira | 55design

Uma memória de infância, a imagem de uma luz atravessando superfícies, é o ponto de partida da Coleção Alumiar, desenvolvida pelo artista plástico piauiense Santídio Pereira em colaboração com a 55design. Em sua estreia no design de mobiliário, Santídio imprime intervenções autorais em 14 peças do portfólio da marca, usando técnicas de perfuração, recorte e bordado – este último executado por artesãs da ONG Orientavida – para trazer à superfície dos móveis referências aos biomas brasileiros e ao cosmos. Cada peça é única e carrega uma camada simbólica sobre como a luz, real ou imaginada, molda a experiência de quem habita o espaço.
Coleção Fractais, Gustavo Neves

Padrões que se repetem em escalas diferentes, mantendo sempre a mesma forma. Essa é a lógica dos fractais que dá nome e estrutura à nova coleção de Gustavo Neves, em estreia na SP-Arte. Cadeiras existem em versões de bronze e madeira maciça com medidas levemente distintas entre si; a escala e o material muda, mas a forma permanece reconhecível – como fragmentos de um mesmo organismo. O bronze, que o artista trabalha há dez anos em fábrica própria, divide espaço com cerâmica mineral de base em pedra, vidro soprado pelo próprio Gustavo e cristal de rocha marroquina, cada material carregando sua própria história de pesquisa e seu próprio grau de estranhamento visual.
Séries Dança e Linha, Luciana Martins e Gerson de Oliveira | ,Ovo

Com quase três décadas de trajetória, a dupla Luciana Martins e Gerson de Oliveira, à frente da ,Ovo, chega à SP-Arte 2026 com sete peças inéditas distribuídas em duas séries. Em Dança, continuação da série iniciada em 2025, biombos em peça única e poltronas exploram tramas de palha em molduras de formato irregular, cujas intersecções criam padrões que se adensam no centro e se abrem nas bordas, subvertendo a lógica ortogonal convencional. Já em Linha, banco e mesa de centro retomam referências da própria trajetória da dupla – como a série Parquet, de 1997 – e as transformam em novas configurações onde as curvas introduzem estranhamento e permanência: objetos para usar, ver e, sobretudo, guardar.
Cadeira Paiol, Sergio Rodrigues | LinBrasil

A LinBrasil chega à sua primeira participação na SP-Arte celebrando 25 anos com um lançamento de peso: a cadeira Paiol (2010), uma das últimas criações de Sergio Rodrigues, ganha agora seu lançamento mundial. Originalmente concebida como cadeira de auditório para o Teatro Paiol de Curitiba – com conchas fixadas na arquibancada de metal –, a peça foi reinterpretada pela marca como objeto autônomo, em colaboração com o designer Sergio Fahrer. A estrutura de compensado moldado com assento estofado de couro preserva as marcas autorais do mestre: os dois furos laterais no encosto, detalhe recorrente em sua obra, que conferem leveza à composição sem abrir mão do rigor formal.
Coleção Planos, Sette7 | St. James

A designer Vivian Coser chega à SP-Arte 2026 com a Sette7 em parceria com a St. James, apresentando três coleções que partem de referências distintas: a natureza orgânica de Burle Marx em Botanique; a silhueta de uma flor em Giardino; e o Neoconcretismo em Planos. É nesta última que reside o lançamento principal: a mesa lateral Planos é relançada inteiramente de aço inox, enquanto o aparador homônimo estreia como nova tipologia, ampliando a linguagem geométrica em escala maior. A materialidade metálica intensifica o jogo entre luz, superfície e percepção – composições essenciais onde planos se encontram, sobrepõem e se equilibram com precisão.
Coleção Memory, Jader Almeida

Dez anos depois do lançamento, a coleção Memory continua sendo um dos trabalhos mais reconhecidos de Jader Almeida – e é exatamente isso que o designer celebra na SP-Arte 2026, com uma exposição inteiramente dedicada à linha. Lançada em 2016, Memory se consolidou pela síntese entre rigor formal, delicadeza e investigação da luz como elemento construtivo, mantendo relevância ao dialogar com diferentes contextos e escalas sem perder identidade. Na edição comemorativa, as peças passam a ser acompanhadas por uma TAG especial e por um kit exclusivo de aromatizadores, ampliando a experiência sensorial da coleção para além do visual.
A Quarta Dimensão do Design, BOOBAM

Aos dez anos de existência, a BOOBAM faz sua primeira grande aparição dentro da SP-Arte com o tema A Quarta Dimensão do Design – uma reflexão sobre as decisões invisíveis por trás de cada peça: escolhas materiais, rejeitos da indústria reaproveitados, repertórios pessoais incorporados ao objeto. A plataforma, que desde 2016 aproxima designers brasileiros de novos públicos, reúne no estande assinado pelo Estúdio Ilha nomes como Andreas Anwander, Casa Manga, DONÓ Design, F. Studio/Sertão Bauhus, Lika Kikkawa, Nicholas Oher, Ohma Design entre outros, em uma seleção que evidencia a diversidade e a potência da cena autoral brasileira contemporânea.
Coleção Jasmine, Valerio Sommella e Simone Bonanni | Tidelli

A Tidelli chega a SP-Arte 2026 com a Coleção Jasmine – primeira parceria com os designers italianos Valerio Sommella e Simone Bonanni, com curadoria da BOOMSPDESIGN. Inspiradas no florescimento do jasmim, as peças traduzem uma linguagem orgânica e fluida, com silhuetas que parecem traçadas em um único gesto contínuo. O lançamento marca também a estreia das cordas bouclé, novos fios acrílicos com acabamento fosco e textura envolvente desenvolvidos integralmente no parque industrial da marca em Salvador (BA).
Peças de plástico reciclado, Superlimão | Vaique

Em parceria com a Vaique, empresa especializada em materiais de baixo impacto, o escritório Superlimão apresenta uma pesquisa que desafia o imaginário do reciclado. O ponto de partida é um plástico translúcido desenvolvido a partir de invólucros coletados no polo têxtil do Rio de Janeiro – material que, pela qualidade visual incomum, rompe com a referência opaca normalmente associada ao reciclado. Tramado manualmente em técnicas inspiradas na cestaria ancestral, ele ganha forma em vasos e estruturas tridimensionais no estande do escritório, e escala arquitetônica na instalação suspensa que marca a entrada da feira.
Dobra-Tempo, Andreas Anwander, Alexandre Kissajikian e Atelier Atlas

O que o design tem a ver com o ócio, o jogo e a relação não utilitária com os objetos? É a partir dessa pergunta que Andreas Anwander, Alexandre Kissajikian e o Atelier Atlas – designers que compartilham um espaço na Barra Funda desde 2022 – desenvolveram Dobra-Tempo, instalação concebida especialmente para a SP-Arte 2026. Inspirada no Abitacolo de Bruno Munari e no Elogio ao Ócio de Bertrand Russell, a obra dialoga com os brinquedões de parques públicos e é construída de metal tubular e madeira sucupira. Mais do que mobiliário, propõe-se como um dispositivo aberto – capaz de estimular tanto a contemplação quanto o jogo, resgatando na vida adulta algo que a infância guarda com naturalidade.




