SP-Arte 2026: 10 anos de design e os lançamentos que marcam a 22ª edição

Com 64 expositores, setor inédito e mostra especial sobre marcenaria brasileira, a feira reafirma o design autoral como protagonista

O Pavilhão da Bienal recebe a 22ª edição da SP-Arte, principal feira de arte e design do Brasil, entre 8 e 12 de abril. Com 180 expositores nacionais e internacionais, a edição deste ano chega marcada por uma data simbólica: dez anos da presença do design na feira. São 64 estúdios e marcas no setor, com 19 estreantes, incluindo três internacionais, distribuídos pelo térreo do Pavilhão em propostas que vão do mobiliário colecionável ao design experimental de pequena escala.

As mini-salas modulares de estrutura metálica e painéis terracota, projetadas pelo Superlimão, organizam o setor Design NOW no 3º andar do Pavilhão da Bienal, criando um circuito independente para os dez estúdios selecionados | Foto: Israel Gollino/Divulgação

A grande novidade desta edição é o Design NOW, setor inédito dedicado ao mobiliário autoral independente, instalado no 3º andar do Pavilhão. Com dez estúdios – nove deles estreantes na feira – e curadoria de Livia Debbane ao lado de Patricia Dranoff, o NOW é um retrato da cena brasileira contemporânea: designers com ao menos dez anos de trajetória, abordagens materiais distintas e produção em pequena escala, cada um em mini-salas projetadas pelo escritório Superlimão.

A instalação suspensa na entrada do Pavilhão da Bienal, assinada pelo Superlimão, usa o plástico translúcido reciclado em camadas ondulantes que evocam o fluxo da água, criando um momento de desaceleração antes de o visitante adentrar a feira | Foto: Israel Gollino/Divulgação

Debbane assina também, pelo terceiro ano consecutivo, uma mostra no setor: Existe uma árvore, que pela primeira vez coloca a madeira como protagonista e percorre a história da marcenaria autoral brasileira a partir das espécies do território nacional.

É nesse contexto de maturidade e expansão que selecionamos alguns dos lançamentos mais relevantes desta edição – peças que traduzem, cada uma à sua maneira, o que o design brasileiro tem de mais inventivo, rigoroso e plural. Confira:

Série Sobrepor, Domingos Tótora e Gabriel De La Cruz

A textura densa e terrosa do papelão reconstituído dialoga com a brutalidade do concreto aparente, criando uma composição onde matéria orgânica e arquitetura monumental se encontram em uma mesma quietude | Foto: André Klotz/Divulgação

A Série Sobrepor marca a primeira colaboração entre o artista e designer Domingos Tótora e o designer Gabriel De La Cruz, reunindo mais de dez peças que transitam entre arte e design. O nome sintetiza tanto o método construtivo – camadas sucessivas de matéria sobrepostas – quanto o encontro de duas trajetórias. A matéria-prima central é o papelão descartado e coletado em Maria da Fé, Minas Gerais, que Tótora transforma em um composto de alta densidade por processos manuais, com terra incorporada à mistura como pigmento natural. Madeiras de demolição completam o vocabulário da série.

Coleção Garatuja, Estúdio Prosa

O tampo irregular da Muirapiranga e as bases esculpidas de Imbuia revelam o encontro entre gesto livre e rigor construtivo, enquanto o espelho bipartido, apoiado sobre base cônica, fragmenta o reflexo e propõe uma leitura dinâmica do objeto | Foto: Guilherme Amaral/Divulgação

Estreantes na SP-Arte, Júlia Rovigo e Gabriel Pesca chegam à feira com a Coleção Garatuja – sete peças inéditas que colocam em diálogo a precisão geométrica e o gesto livre, quase instintivo. Sediado em Itajaí (SC), o Estúdio Prosa tem raízes na carpintaria naval clássica e usa a madeira como matéria de pesquisa e expressão. Na coleção, o encontro entre Muirapiranga – madeira amazônica – e Imbuia – da Mata Atlântica – cria contrastes cromáticos e táteis que ampliam a leitura das formas. Encaixes aparentes e processos manuais assumem papel central, tornando a técnica parte visível da linguagem.

Mesa Arco, Nicole e Luiza Toldi | Designers Group Gallery

A base de porcelana esmaltada revela texturas e iridescências que evocam formações naturais, enquanto o tampo escuro e de bordas irregulares reforça o caráter escultórico da peça | Foto: Leila Viegas/Divulgação

Na Designers Group Gallery – primeira galeria brasileira dedicada ao functional art, reunindo 14 criadores em edições limitadas e séries especiais –, um dos destaques é a estreia do ateliê Nicole & Luiza Toldi no mobiliário colecionável. Mãe e filha chegam a SP-Arte com um conjunto de peças únicas, integralmente feitas à mão, que introduzem a porcelana como estrutura e discurso: cada objeto nasce como escultura e assume, simultaneamente, a condição de mobiliário, tensionando função e potência plástica sem abrir mão de nenhuma das duas.

Coleção Monumental, Erik Bonissato | BONNI

O sofá Monumento, com seus volumes generosos e braços franzidos, e a luminária Vinco, com cúpula de algodão natural costurada à mão, são os destaques da Coleção Monumental de Erik Bonissato para a BONNI | Foto: Cacá Bratke/Divulgação

Vencedor do prêmio de Melhor Design na SP-Arte 2025, Erik Bonissato chega à edição deste ano com a Coleção Monumental – uma proposta que parte de um princípio claro: uma peça não deve apenas ocupar um espaço, mas estabelecer um território. Sofá, luminárias, mesas e assentos foram concebidos em torno de três pilares – presença escultórica, perenidade e escala emocional –, combinando proporções marcantes com processos artesanais. O destaque fica com o sofá Monumento, de volumes generosos e braços franzidos que revelam o gesto manual, e com as luminárias Vinco, cuja cúpula de algodão natural é moldada à mão em um processo de costura que pode levar até 30 dias.

Bar Urucum, Felipe Rezende | Mobília Puro | Designers Group Gallery

O interior vermelho intenso e a tampa facetada de latão contrastam com o exterior de aço inox, revelando um objeto que guarda tanto apuro construtivo quanto personalidade cromática | Foto: Ruy Teixeira/Divulgação

Do arquiteto Felipe Rezende, fundador da Mobília Puro, o bar Urucum reinventa o tradicional trolley doméstico como objeto autônomo e de forte presença visual. A peça combina estrutura de aço inox, interior em vermelho intenso e elementos de latão e acrílico – uma composição que dialoga diretamente com referências ao território brasileiro já no nome, inspirado no urucum, pigmento de origem indígena. Apresentado no estande da Designers Group Gallery, o bar integra uma seleção de 14 criadores que transitam entre design colecionável, arte e arquitetura.

Cadeira Trama, Rafael Espíndola | WOODING

A estrutura de madeira maciça e o assento tramado à mão em cordão de papel reciclado compõem uma cadeira de presença discreta e vocabulário essencialmente brasileiro | Foto: Divulgação

Da matéria nasce a forma” é o título da exposição com que a Wooding marca sua segunda participação no setor de Design da SP-Arte – e ele resume bem a filosofia do fundador Rafael Espíndola. Entre as oito peças inéditas apresentadas, a cadeira Trama sintetiza esse princípio com precisão: estrutura de madeira maciça e assento tramado à mão em cordão de papel reciclado torcido, com variações geométricas que fazem de cada exemplar uma peça singular.

Série Vitória, Cris Bertolucci

Na série Vitória, os pendentes de linho franzido projetam sombras suaves sobre a composição abaixo, criando uma atmosfera que dissolve os limites entre luminária, vestimenta e cenografia | Foto: André Klotz/Divulgação

Luz como matéria, não como função. Essa é a premissa que orienta o trabalho de Cris Bertolucci há mais de uma década. Na SP-Arte 2026, o estúdio apresenta Corpos de Luz, exposição com três séries inéditas que investigam diferentes materialidades como agentes da experiência luminosa: Garoa, de cristal soprado pela técnica baloton, que refrata e multiplica os feixes de luz; Takai, de bambu e superfícies têxteis translúcidas, de dimensão arquitetônica; e Vitória, de linho, na qual franzidos, amarrações aparentes e sobreposições evocam silhuetas do vestuário histórico reinterpretadas pelo campo têxtil. Juntas, as séries constroem o que a designer define como um rococó contemporâneo – ornamentação e teatralidade depuradas pela consciência material.

Cadeira Clave, Marina Kurten Moreira | Designers Group Gallery

O par espelhado evidencia o jogo de escalas e simetria da cadeira Clave, com o acabamento preto de alto brilho e os pés de latão polido, criando um contraste que reforça a presença escultórica da peça | Foto: Cícero Kroeff/Divulgação

A cadeira Clave nasce de uma referência musical: a clave de sol, elemento que antecede a música e organiza sua leitura. Com apenas 25 anos, Marina Kurten Moreira chega à SP-Arte pela primeira vez – no espaço da Designers Group Gallery – com uma peça de traçado contínuo e fluido que se desdobra no espaço como gesto tridimensional. A estrutura de latão e alumínio fundidos recebe externamente pintura preta de alto brilho, em referência ao verniz dos pianos, enquanto o latão polido aparece internamente no encosto e nos pés, evocando os acabamentos dourados dos instrumentos. O resultado é uma cadeira de forte presença escultórica e arquitetônica – contemplativa por natureza, colecionável por vocação.

Coleção Alumiar, Santídio Pereira | 55design

As camadas de couro em diferentes tonalidades terrosas no encosto evocam relevos de paisagens brasileiras, enquanto a estrutura de aço escuro sustenta a composição com leveza gráfica | Foto: Divulgação

Uma memória de infância, a imagem de uma luz atravessando superfícies, é o ponto de partida da Coleção Alumiar, desenvolvida pelo artista plástico piauiense Santídio Pereira em colaboração com a 55design. Em sua estreia no design de mobiliário, Santídio imprime intervenções autorais em 14 peças do portfólio da marca, usando técnicas de perfuração, recorte e bordado – este último executado por artesãs da ONG Orientavida – para trazer à superfície dos móveis referências aos biomas brasileiros e ao cosmos. Cada peça é única e carrega uma camada simbólica sobre como a luz, real ou imaginada, molda a experiência de quem habita o espaço.

Coleção Fractais, Gustavo Neves

A superfície irregular do bronze fundido e as pernas orgânicas da cadeira evocam tanto a textura de um fóssil quanto a lógica de crescimento da natureza – formas que parecem ter surgido por si mesmas | Foto: Divulgação

Padrões que se repetem em escalas diferentes, mantendo sempre a mesma forma. Essa é a lógica dos fractais que dá nome e estrutura à nova coleção de Gustavo Neves, em estreia na SP-Arte. Cadeiras existem em versões de bronze e madeira maciça com medidas levemente distintas entre si; a escala e o material muda, mas a forma permanece reconhecível – como fragmentos de um mesmo organismo. O bronze, que o artista trabalha há dez anos em fábrica própria, divide espaço com cerâmica mineral de base em pedra, vidro soprado pelo próprio Gustavo e cristal de rocha marroquina, cada material carregando sua própria história de pesquisa e seu próprio grau de estranhamento visual.

Séries Dança e Linha, Luciana Martins e Gerson de Oliveira | ,Ovo

O biombo de trama aberta em moldura poligonal cria um jogo de sobreposições e transparências que o olhar percorre sem nunca pousar, enquanto as cadeiras da série Dança repetem a lógica da moldura irregular em escala menor | Foto: Divulgação

Com quase três décadas de trajetória, a dupla Luciana Martins e Gerson de Oliveira, à frente da ,Ovo, chega à SP-Arte 2026 com sete peças inéditas distribuídas em duas séries. Em Dança, continuação da série iniciada em 2025, biombos em peça única e poltronas exploram tramas de palha em molduras de formato irregular, cujas intersecções criam padrões que se adensam no centro e se abrem nas bordas, subvertendo a lógica ortogonal convencional. Já em Linha, banco e mesa de centro retomam referências da própria trajetória da dupla – como a série Parquet, de 1997 – e as transformam em novas configurações onde as curvas introduzem estranhamento e permanência: objetos para usar, ver e, sobretudo, guardar.

Cadeira Paiol, Sergio Rodrigues | LinBrasil

A concha em compensado moldado e os dois furos no encosto – marca registrada de Sergio Rodrigues – ganham base autônoma em vergalhão de aço carbono preto, atualizando a peça sem apagar sua origem | Foto: Hay Graphiks/Divulgação

A LinBrasil chega à sua primeira participação na SP-Arte celebrando 25 anos com um lançamento de peso: a cadeira Paiol (2010), uma das últimas criações de Sergio Rodrigues, ganha agora seu lançamento mundial. Originalmente concebida como cadeira de auditório para o Teatro Paiol de Curitiba – com conchas fixadas na arquibancada de metal –, a peça foi reinterpretada pela marca como objeto autônomo, em colaboração com o designer Sergio Fahrer. A estrutura de compensado moldado com assento estofado de couro preserva as marcas autorais do mestre: os dois furos laterais no encosto, detalhe recorrente em sua obra, que conferem leveza à composição sem abrir mão do rigor formal.

Coleção Planos, Sette7 | St. James

O aço inox polido capta e redistribui a luz natural em superfícies que parecem ao mesmo tempo sólidas e fluidas, reforçando o diálogo entre geometria precisa e percepção sensorial | Foto: Divulgação

A designer Vivian Coser chega à SP-Arte 2026 com a Sette7 em parceria com a St. James, apresentando três coleções que partem de referências distintas: a natureza orgânica de Burle Marx em Botanique; a silhueta de uma flor em Giardino; e o Neoconcretismo em Planos. É nesta última que reside o lançamento principal: a mesa lateral Planos é relançada inteiramente de aço inox, enquanto o aparador homônimo estreia como nova tipologia, ampliando a linguagem geométrica em escala maior. A materialidade metálica intensifica o jogo entre luz, superfície e percepção – composições essenciais onde planos se encontram, sobrepõem e se equilibram com precisão.

Coleção Memory, Jader Almeida

A luminária de piso Memory, com seu braço articulado de madeira e detalhe de latão, reafirma após dez anos a síntese que a consagrou: rigor formal, delicadeza e a luz tratada como elemento construtivo | Foto: Divulgação

Dez anos depois do lançamento, a coleção Memory continua sendo um dos trabalhos mais reconhecidos de Jader Almeida – e é exatamente isso que o designer celebra na SP-Arte 2026, com uma exposição inteiramente dedicada à linha. Lançada em 2016, Memory se consolidou pela síntese entre rigor formal, delicadeza e investigação da luz como elemento construtivo, mantendo relevância ao dialogar com diferentes contextos e escalas sem perder identidade. Na edição comemorativa, as peças passam a ser acompanhadas por uma TAG especial e por um kit exclusivo de aromatizadores, ampliando a experiência sensorial da coleção para além do visual.

A Quarta Dimensão do Design, BOOBAM

O estande assinado pelo Estúdio Ilha reúne peças de diferentes criadores sobre uma plataforma azul com detalhes em vermelho, criando um ambiente expográfico que afirma o design autoral brasileiro como campo híbrido entre arte e objeto | Foto: Leila Viegas/Divulgação

Aos dez anos de existência, a BOOBAM faz sua primeira grande aparição dentro da SP-Arte com o tema A Quarta Dimensão do Design – uma reflexão sobre as decisões invisíveis por trás de cada peça: escolhas materiais, rejeitos da indústria reaproveitados, repertórios pessoais incorporados ao objeto. A plataforma, que desde 2016 aproxima designers brasileiros de novos públicos, reúne no estande assinado pelo Estúdio Ilha nomes como Andreas Anwander, Casa Manga, DONÓ Design, F. Studio/Sertão Bauhus, Lika Kikkawa, Nicholas Oher, Ohma Design entre outros, em uma seleção que evidencia a diversidade e a potência da cena autoral brasileira contemporânea.

Coleção Jasmine, Valerio Sommella e Simone Bonanni | Tidelli

A silhueta orgânica da cadeira Jasmine, trançada nas novas cordas bouclé em tom sage, dialoga com o painel de cordas ao fundo e reforça a proposta da coleção de aproximar o mobiliário outdoor de uma linguagem escultórica e sensorial | Foto: Divulgação

A Tidelli chega a SP-Arte 2026 com a Coleção Jasmine – primeira parceria com os designers italianos Valerio Sommella e Simone Bonanni, com curadoria da BOOMSPDESIGN. Inspiradas no florescimento do jasmim, as peças traduzem uma linguagem orgânica e fluida, com silhuetas que parecem traçadas em um único gesto contínuo. O lançamento marca também a estreia das cordas bouclé, novos fios acrílicos com acabamento fosco e textura envolvente desenvolvidos integralmente no parque industrial da marca em Salvador (BA).

Peças de plástico reciclado, Superlimão | Vaique

O plástico translúcido reciclado revela sua qualidade luminosa quando retroiluminado, cobrindo as paredes do estande em módulos tramados e se desdobrando em luminárias e objetos que provam o potencial projetual do material | Foto: Israel Gollino/Divulgação

Em parceria com a Vaique, empresa especializada em materiais de baixo impacto, o escritório Superlimão apresenta uma pesquisa que desafia o imaginário do reciclado. O ponto de partida é um plástico translúcido desenvolvido a partir de invólucros coletados no polo têxtil do Rio de Janeiro – material que, pela qualidade visual incomum, rompe com a referência opaca normalmente associada ao reciclado. Tramado manualmente em técnicas inspiradas na cestaria ancestral, ele ganha forma em vasos e estruturas tridimensionais no estande do escritório, e escala arquitetônica na instalação suspensa que marca a entrada da feira.

Dobra-Tempo, Andreas Anwander, Alexandre Kissajikian e Atelier Atlas

A estrutura em metal tubular colorido e madeira sucupira evoca os trepa-trepas de parques públicos, reunindo elementos de escala, suspensão e apoio que convidam ao jogo e à descoberta sem predefinir usos | Foto: Rodrigo Fonseca/Divulgação

O que o design tem a ver com o ócio, o jogo e a relação não utilitária com os objetos? É a partir dessa pergunta que Andreas Anwander, Alexandre Kissajikian e o Atelier Atlas – designers que compartilham um espaço na Barra Funda desde 2022 – desenvolveram Dobra-Tempo, instalação concebida especialmente para a SP-Arte 2026. Inspirada no Abitacolo de Bruno Munari e no Elogio ao Ócio de Bertrand Russell, a obra dialoga com os brinquedões de parques públicos e é construída de metal tubular e madeira sucupira. Mais do que mobiliário, propõe-se como um dispositivo aberto – capaz de estimular tanto a contemplação quanto o jogo, resgatando na vida adulta algo que a infância guarda com naturalidade.

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