
Durante décadas, a Casa Joaquim Barretto foi cenário de almoços em família, festas infantis, encontros entre amigos, saraus e conversas que atravessaram gerações. Localizada em um terreno íngreme no bairro do Pacaembu, em São Paulo, a residência projetada por Joaquim Barretto (1940–1985) e Francisco Segnini entre 1978 e 1981 continua desempenhando exatamente o papel para o qual foi concebida: ser uma casa viva.

A permanência desse espírito ficou evidente recentemente, quando o imóvel abriu as portas para receber um encontro promovido pela Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), entidade presidida por Camilla Barretto, filha do arquiteto. Mais do que sediar uma discussão sobre arquitetura, design e hospitalidade, a residência reafirmou sua vocação original como espaço de convivência e troca.
“O espírito original do projeto sempre foi ser uma casa que era para ser amada, assumida e recriada cotidianamente”, afirma Camilla. “Ela se transforma conforme as necessidades dos seus usuários. Ela vira palco de festas, de casamentos, de saraus. Eventualmente, minha mãe aluga a casa para editoriais de moda, mas eventos muito particulares.”

Uma casa desenhada para o terreno – e para a vida

Implantada em um lote de 535 m² com declive de 45 graus, a residência se organiza em quatro pavimentos que acompanham a topografia natural. Em vez de combater a inclinação do terreno, o projeto a incorpora como parte fundamental da experiência espacial.
Para a arquiteta Ana Sawaia, uma das participantes do encontro realizado no imóvel, esse é um dos aspectos mais relevantes da obra. “O que mais chama atenção é que a casa não tenta negar o terreno. Ela se apoia na declividade e transforma essa condição em qualidade espacial. Em vez de fazer grandes cortes ou resolver a inclinação apenas com muros de arrimo, o projeto se organiza em quatro pavimentos, acompanhando a topografia e criando uma sequência de ambientes em diferentes níveis.”

Essa estratégia permitiu a criação de um dos elementos mais emblemáticos da residência: a arquibancada interna que acompanha o desnível do lote e conecta diferentes ambientes. Ao mesmo tempo estrutura, circulação e espaço de convivência, ela sintetiza a liberdade espacial que caracteriza o projeto.
A casa também revela um momento de transição na arquitetura brasileira. Embora dialogue com a produção paulista dos anos 1970 por meio do concreto armado, dos desníveis e da integração dos ambientes, afasta-se de uma leitura mais rígida do brutalismo ao incorporar tijolos aparentes, madeira, telhas cerâmicas e elementos curvos.

“O projeto aproxima a estrutura de concreto de materiais ligados à experiência doméstica, como o tijolo, a madeira e o telhado de barro. Essa convivência dá personalidade à residência e afasta a obra de uma leitura mais rígida do moderno”, observa Ana.
A própria concepção da casa ajuda a explicar essa singularidade. Antes da versão construída, Joaquim Barretto e Francisco Segnini haviam desenvolvido uma proposta mais próxima da chamada Escola Paulista, marcada pelo concreto aparente e por uma linguagem mais abstrata. A mudança ocorreu após uma observação decisiva de Maria Luisa Barretto, esposa do arquiteto.
“Quando Maria Luisa, mulher de Joaquim, viu o projeto, ela não se reconheceu nele”, conta Ana. “A partir dessa escuta, o projeto mudou profundamente.”
O retrato de um arquiteto

Mais do que um exercício formal, a residência acabou se tornando uma espécie de autorretrato construído de Joaquim Barretto. Professor, pesquisador, diretor cultural do IAB-SP e autor de uma produção marcada pela experimentação, ele buscava uma arquitetura que extrapolasse a simples resolução funcional dos espaços.
Em texto escrito sobre a própria residência, o arquiteto definiu a casa como resultado da “busca da libertação de padrões anteriormente incorporados” e da necessidade de associar funções cotidianas “à descoberta do novo, do inusitado, do inventado“. Seu objetivo era criar uma casa “não apenas usada, e sim, principalmente, amada, assumida, transformada, recriada cotidianamente por aqueles que aí moram“.
Décadas depois, a descrição continua precisa

“Meu pai era uma pessoa muito especial, diferente, intensa, alegre, comunicativa e muito fora da curva”, lembra Camilla. “Eu acho que essa casa é o retrato de tudo isso que era dele. Ela é muito ele. Um lugar fora do comum, um lugar nada previsível, onde você vai descobrindo e se encantando a cada momento.”
A relação entre arquitetura e experiência também aparece na forma como os ambientes se articulam. Em vez de compartimentos rígidos, a casa trabalha com sobreposições, percursos e visuais que se revelam aos poucos, criando uma experiência de descoberta constante.

“O grande coração da casa é esse ambiente onde você tem esse chão que é uma pintura de ladrilho hidráulico, com essa mesa Saarinen branca e todas as obras de arte que compõem esse ambiente de coração, de vida pulsante”, descreve Camilla ao falar do espaço integrado que reúne sala, jantar e cozinha.
Um legado que continua vivo

Se a arquitetura permanece relevante quase cinco décadas após sua construção, isso também se deve ao fato de a residência continuar habitada pela mesma família. Desde que se mudou para o imóvel, no início dos anos 1980, Maria Luisa Barretto nunca deixou de reinventar seus espaços.
Ao longo do tempo, móveis herdados de familiares foram incorporados aos ambientes, objetos mudaram de lugar e novos usos surgiram naturalmente. A casa acompanhou transformações familiares sem perder sua essência. “Acho que ela continua sendo um ponto de referência familiar para todo mundo”, afirma Camilla.

Para Ana Sawaia, essa capacidade de adaptação é justamente uma das qualidades que tornam o projeto tão atual. “Uma boa arquitetura precisa ter força suficiente para continuar existindo mesmo quando passa a acolher outros moradores, outros hábitos e outras formas de viver.”
Talvez seja essa a principal razão para que a Casa Joaquim Barretto continue despertando interesse de arquitetos, pesquisadores e visitantes. Mais do que preservar uma obra importante da arquitetura paulista, ela mantém algo mais raro: a capacidade de permanecer viva.

“A memória mais forte que esse espaço guarda realmente é a do meu pai, do amor, do carinho, da afetividade, da diversão”, resume Camilla. “Ela é a memória viva do meu pai.”




