
Há uma diferença fundamental entre usar Paris como pano de fundo e usá-la como declaração. A primeira é turismo. A segunda é arquitetura – no sentido mais amplo do termo: a compreensão de que o espaço não é neutro, que toda escolha de lugar carrega história, simbolismo e intenção.

Nas últimas duas edições da Paris Fashion Week, um grupo de maisons fez exatamente essa escolha, transformando jardins históricos, bolsa de valores e praças de protestos em extensões diretas das coleções que apresentavam. O espaço público passou a ser linguagem.

A Dior foi a casa que pela segunda vez consecutiva fez do Jardin des Tuileries o epicentro de sua afirmação estética. Em março de 2026, para o Outono/Inverno 2026, Jonathan Anderson havia construído uma estufa de vidro ao redor do Bassin Octogonal – estrutura pintada no mesmo verde dos bancos icônicos que pontuam os jardins parisienses.

Esses bancos, é preciso dizê-lo, têm história: criados em 1923 pelos ateliês do departamento de parques da cidade de Paris, foram reinterpretados em 2004 pelo designer Frédéric Sofia para a Fermob, que passou a produzi-los em alumínio leve mantendo o espírito original. São hoje símbolo do art de vivre francês – e Anderson os elegeu como protagonistas visuais do desfile, usando a Poltrona Luxembourg em miniatura como convite para os convidados. O show era visível a qualquer pessoa que atravessasse o parque naquela tarde, com os Tuileries abertos em todos os lados.




Em setembro do mesmo ano, para a coleção Primavera/Verão 2027, Anderson voltou ao mesmo endereço – desta vez com uma instalação ainda mais imersiva. Uma passarela branca e estreita cruzou as águas do Bassin Octogonal, e canforeiras adultas foram plantadas dentro da bacia, com névoa deslizando ao redor de seus troncos enquanto as modelos desfilavam. A produção foi assinada pela Bureau Betak – e a casa anunciou que replantaria as árvores do set nos próprios Tuileries ao fim da semana. O projeto paisagístico do desfile torna-se, literalmente, parte do parque.
Já Saint Laurent operou em escala diferente – e com o peso adicional do que, descobriríamos dias depois, seria um adeus. Para a coleção Primavera/Verão 2027, Anthony Vaccarello escolheu o Trocadéro ao entardecer. Três lustres monumentais concebidos com a Bureau Betak e o escritório Casper Mueller Kneer Architects evocavam o salão de baile do Hôtel InterContinental, onde historicamente Yves Saint Laurent apresentou suas coleções de alta-costura.

Por baixo deles, uma passarela laqueada de preto recebia 49 dos 59 looks em ouro, com a Torre Eiffel iluminada de dourado ao fundo. A torre respondeu ao desfile em tempo real – seus jogos de luz acendendo em sincronia com momentos-chave da apresentação, e de forma especialmente intensa no encerramento, quando Charlotte Gainsbourg subiu ao palco para uma performance que transformou o espaço em despedida coletiva.



Os dez looks finais vieram em preto. A leitura era inevitável: “Uma luz brilha tanto mais intensamente porque sabemos que não pode ser retida. O que passa às vezes deixa mais luz do que o que permanece”, escreveu Vaccarello nas notas do desfile. Nos dias seguintes, a saída foi confirmada após dez anos à frente da maison. Os looks dourados celebravam uma era. Os pretos, talvez, reconheciam seu fim.
O caso mais radical foi o do coletivo canadense Matières Fécales. A dupla Hannah Rose Dalton e Steven Raj Bhaskaran tem construído, coleção após coleção, uma narrativa política explícita – e escolhido os espaços de Paris como palco dessa narrativa com precisão cirúrgica.

Em março de 2026, instalaram o desfile Outono/Inverno 2026 no Palais Brongniart – a antiga Bolsa de Valores de Paris – para apresentar “The One Percent”, coleção estruturada como crítica à concentração de riqueza global, inspirada em dados da Oxfam sobre a parcela mais rica da população mundial. Em três atos, a coleção explorou o conceito de poder: o glamour clássico, a comunidade e o futuro. A escolha do espaço não era metáfora – era literalidade: o lugar onde o dinheiro foi negociado por séculos, agora ocupado por uma marca que questiona quem tem acesso a ele.
Em setembro de 2026, a narrativa avançou. A coleção “The Ninety-Nine Percent” tomou a Place de la République no dia 28, em uma primeira histórica: nunca antes um desfile da Paris Fashion Week havia sido realizado naquela praça.

Cercada pela estátua monumental de Léopold Morice, inaugurada em 1883 como símbolo da República, a apresentação reuniu 99 modelos – grande parte composta por minorias raciais e étnicas, corpos de diferentes formas e idades, pessoas do círculo pessoal dos designers – em um desfile que era simultaneamente coleção e protesto.






“Em algumas paisagens – como este ambiente da Place Vendôme – pessoas como nós não são bem-vindas. Trata-se justamente de pegar esse obstáculo e transformá-lo em algo bonito”, havia dito Bhaskaran na temporada anterior. Na Place de la République, essa lógica atingia sua escala máxima: a praça das manifestações como passarela, e a passarela como manifesto.
O que essas escolhas revelam, juntas, é que o desfile contemporâneo já não se contenta com o interior de um espaço controlado. O espaço público – com sua acidentalidade, sua memória sedimentada, seus passantes involuntários – tornou-se parte do argumento que a moda quer fazer sobre si mesma e sobre o tempo em que existe. Quando o jardim responde à roupa, quando a torre ilumina no momento certo, quando a praça da revolução vira passarela, a cidade torna-se coautora.










